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sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Final de Semana



Se você consegue se sensibilizar e - embora haja, às vezes, algum lance chato - se sente feliz consigo mesmo. Ou se você costuma ter pensamentos bons sobre seus amigos de infância, como um daqueles filmes coloridos e leves de sábado à noite: então, "Glow!" (tem a sua cara). :)
Um ótimo final de semana!

"O mundo é um lugar perigoso de se viver... Não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam o mal e simplesmente permitem que ele ocorra".

- Albert Einstein

sábado, 18 de julho de 2009

Lembranças

Acima: Uma das primeiras capas de dreaming-boy!



Olá!

Saudade de vocês ^^

Faz muito tempo que não apareço por aqui. Mas não foi porque o meu lápis voltou a ter ponta (referência ao endereço do blog), e sim porque nos últimos tempos resolvi me dedicar a uma história insana e meio autobiográfica chamada dreaming-boy!.
Esse livro (e é o tipo de texto que eu pretendo fazer sobre o garoto sonhador) tem o título, em parte, inspirado no Nemo (favor, olhar os primeiros posts do Lápis) e uma sintonia fina com o universo dos quadrinhos, do rock e toda literatura sarcástica e underground que possa talvez existir.
Para os que ainda aguardam novos posts, não desanimem: o dreaming-boy! já terá sua primeira edição em Agosto.

Meus agradecimentos a todos que lêem e gostam das minhas conjecturas cômicas e sensíveis em forma de palavra escrita (ou digitada, se preferirem, já que eu sempre darei um jeitinho de quebrar a ponta do meu lápis de madeira, só pra poder colocar minhas ideias aqui :-) ).

Como estou sempre inebriado de saudosismo - e especialmente para lembrar os bons tempos de infância - ouçam essa minha sugestão musical: Pavement - "Terror Twilight". Esse álbum é ótimo! ^^

Abraços e beijos!

"A música está em tudo. Do mundo sai um hino." - Victor Hugo

domingo, 21 de setembro de 2008

"... Mas não sai." (*)


Só porque eu não digo nada
Não quer dizer que eu não gosto de você
Eu abro minha boca e tento e tento
Mas as palavras não vêm.

Sem 40 onças de habilidades sociais
Eu sou apenas mais um num instante da humanidade
Sou apenas um grande peixe-boi
Um enorme peixe-boi.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde assistindo desenho.

Duck Tales, Shirt Tails, Talespin, Sailor Moon, GI Joe, Robotech, Ron Jeremy, Schmoo.

Eu quero ver desenho com você
Josie e as Gatinhas e Scooby Doo
Eu quero que você veja desenhos comigo
He-man, Voltron e Hong-Kong-Fui.

Eu tentei te convidar
Mas as palavras não vieram
Eu coloquei meu capuz e fui embora
Isso não significa que eu não gosto de você.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde e eu talvez te beijar.

Só porque eu não digo nada
Não quer dizer que eu não gosto de você
Eu abro minha boca e tento e tento.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde assistindo desenho.

Sou apenas mais um dos Thundercats.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Aos queridos leitores (2)

Estou prestes a concluir a minha fantasia mais pronlongada: Causa e efeito. Antes, eu havia pensado numa pequena publicação com direito a desenhos muito bem produzidos e (quem me dera!) uma revista. O nome dessa obra seria Neolíticos. Neolíticos propõe uma discussão bem-humorada sobre as relações humanas. Coisas simplórias que buscavam decifrar os diversos casos entre homens e mulheres, baseado no modelo artístico (ou gráfico) da época da Pré-história. Assim, tentei criar alguma comparação absurda entre os hominídeos do período neolítico e os sapiens de nossa era, de modo que pudesse responder minha curiosidade, sem que para tanto fosse necessário um estudo científico e sério. Neolíticos era quase um Flintstones "bem" acabado, e com mais infidelidade ainda aos acontecimentos históricos. O que eu realmente quis foi desenhar tão bem pelo menos uma vez. Com a constatação de que Neolíticos não teria sua vez, curti o meu chamado "hiatus", logo em seguida retomando o curso da minha produção escrita na elaboração de rápidos contos e do meu blog definitivo: Lápis. Causa e efeito não é um resumo, mas sim um conteúdo prolongado e pessoal , como uma fácil coleção de memórias, porém sem datas ou lugares certos nem sequer precisão de detalhes e informação.
Para cada efeito existe uma causa; de modo bastante parecido, dizem existir uma reação para cada ação.
O que explica cada frase escrita nesta leitura particular é somente o nada: nada de complexidades, nada de assuntos profundos ou aparências. Não irei me render a discursos intermináveis a respeito do livro, porque, como sedento leitor que costumo ser, sei que apresentações não costumam resumir muito bem e nem ao menos explicam a alma de uma concepção literária. É mais importante ler do que apresentar. Apenas isso.

Até.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Adaptado

... Tudo isso me lembrou uma comédia juvenil: os caras passavam pela Holanda e inventavam de entrar numa doceria (algo do tipo) pra experimentar o bolo de haxixe. Um garçon traz bolo e eles devoram tudo. Começam a rir sem parar e se perguntam "por que eu tô sentindo tanto calor? eu não consigo parar de rir!".
Um cara se levanta e começa a dizer: - O que você colocou nesse bolo, cara?! Eu tô doidão! HAHA.
O garçon estranha, pergunta se está tudo bem e responde:
- Nós não servimos esse tipo de bolo. Aqui é um restaurante comum.

Aí eu pensei:
- Cara, pois é... tem gente que viaja sozinha mesmo. Nem precisa de ajuda.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

1° dia


Repetidas vezes, a cada quatro jornadas, girando dentro do espaço retangular de um calendário... segundas, terças, quartas... sextas-feiras santas, profanas... dias de sábado, domingo. Poderia ter sido, pelo menos uma vez, diferente, mas as coisas se movem para uma possibilidade igual. Os dias de domingo nunca foram meus preferidos. Odiava todo aquele calor que um dia de domingo parece exalar. Isso me deixava tonto. Dias perdidos, dias em que se vê o sangue jorrar, enquanto se espera a descontinuidade de seu fluxo. Um chumaço de algodão queimado entre as narinas, a respiração sem força... olhos e boca bem arregalados... a cabeça inclinada para o alto, toques leves das pontas dos pés no chão frio, traçando o caminho de chegada e saída... o som que se sente como o do curso de uma correnteza e a sensação viva de um líquido viscoso, rubro e metálico a invadir toda a sua língua.
As coisas acontecendo num espaço curto e monótono de tempo, enquanto você tenta estancar a morte que caminha por entre os dedos, pingando gotas da metade da outra metade de sua vida. As dores fortes que tomam todo o seu cérebro, a preencher os lados, a fronte, os cantos inferiores dos olhos... ferindo-lhe a boca seca com calor infernal.
"Malditos! Malditos, todos vocês!".
Completamente tomado de ânimo, cheiro e sabor de metal. Quando o medo escapava de mim, eu me erguia sozinho e jogava fora os pedacinhos de algodão, olhava bem a minha imagem frente ao espelho e depois seguia para qualquer lugar. Às vezes era melhor sentar em um pequeno tijolo e conversar sozinho; às vezes era bom correr um pouco.
"Nada de fumaça, muito menos alimentos gelados. Comida sem qualquer aditivo... corante, emulsificante... extasiante... alucinante.
"Fique longe do frio e se distancie do calor. Use panos mornos".
Sobrevivência no mini-universo da incompleta realização.
Nada de hoje é diferente do que foi, porque simplesmente sempre foi. Não existiram etapas, muito menos fases. Na vida, tudo foi algo único. As pessoas se aproximaram, se afastaram, foi criada uma ligação vital... depois houve dependência e também um pouco de tristeza. Sem que pudesse perceber como aconteceu, eu estava novamente numa outra roda... cultivando afeto, trocando olhares, canalizando o animado uso do meu tempo. O meu único problema, imagino, é que eu estava preparado antes de me dizerem adeus. As pessoas... não as odeio, mas acredito que não as amo. "Amor é uma palavra muito forte" ... e pode ser que o mesmo amor que se sente te distancie daquilo que você espera aproximar. As pessoas que tanto amamos, de uma maneira pouco compreensível, tenderão a se mostrar magoadas, receosas... talvez por já terem vivido o mesmo que nós. Mas a realidade se transforma completamente (espera-se que sim).
"Por que você foi me amar? "Por favor... esqueça".
Não se consegue parar de pensar em tolices. E pensamentos ruins não descansam.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Aos queridos leitores

Algumas coisas foram apagadas para que dessem espaço a outras. Nem tudo que escrevi e aqui foi colocado era parte de um acontecimento real, porque eu sempre espero que todos vocês, leitores, tenham um pouco de imaginação. Por favor, se por acaso tiveram a nítida sensação de que fosse assim, peço que me desculpem. Não faço isso por maldade. Talvez seja só uma técnica involuntária do meu processo criativo, ou eu realmente tenho lábia pra transformar um tanto de assuntos perdidos em uma coisa inteligente e lúcida.
Convencer as pessoas de que uma fantasia é "real" até onde se possa sugerir não é nada fácil. "Pontos pra mim". Porém, talvez seja mais difícil ainda convencê-las do contrário. As pessoas necessitam de um pouco de sonho, o tempo todo, daí uma dependência quase química de se acostumar a "voar alto".
Mas fantasias não têm asas, nem sequer voam.


Vez ou outra, eu continuarei publicando. O estoque de lembranças infantis acabou. Eu agora quero escrever mais, sem paradas para respirar ou pensar direito. É isso.

Obrigado pela gentileza e atenção. Nos encontraremos, em breve.



Notas: 1. A entrevista para o Papo Furado foi apagada, não porque não tivesse acontecido, mas porque houve uma escolha por colocar futuramente a entrevista definitiva, a que foi escolhida (esqueci de mencionar que foram 5 sessões). A postagem era fruto de uma gravação;
2. As outras postagens, mais precisamente as de música, foram apagadas porque, definitivamente, não pretendo perder meu repertório de curiosidades já guardados para a revista em que estou trabalhando nos últimos tempos. Assim, ficarão sempre neste espaço contos, observações diárias ou opiniões diversas a respeito de tudo, menos música. Quando houver a possibilidade de repassar o que escrevi sobre o tema música, deixarei uma postagem;
3. As outras coisas, as que se referiam a imagem... bem, eu repensei: não quero deixar isso aqui tão solto. Gosto de colocar imagens, mas aquelas todas, naquele número, tomavam bastante espaço e dificultavam, vez por outra, a leitura completa do Lápis. O que sobrou é meu mimo (Nemo e Filosofia).

.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Natural

Todos os olhares se voltavam para o chão, enquanto eu passava no corredor principal. O lugar sujo de branco, cinza e azul; uma mistura psicodélica de tons agressivos e angustiante temperatura quente. Naquele mundinho, pensar em respirar era sinônimo de morte. Homens e mulheres sem nenhuma disposição passeavam para todos os lados. Nos rostos, a junção de mil noites mal dormidas, angústia e ódio.
Cada personagem novo que por ali passava naquela hora da manhã segurava firme suas bolsas e livros de todos os tamanhos e formas, aparentando preocupação com seus assuntos particulares. Não era o momento oportuno para se dizer "bom-dia"; nenhum deles saberia responder. Por alguns instantes eu me preocupei em não estar ocupado com nada. Dei uma volta nos outros espaços do prédio, averigüei horários e compromissos... depois me sentei em qualquer cantinho e esperei a passagem do tempo. Avistei mais duas ou três pessoas desconhecidas que comigo compartilharam um profundo tédio. Logo depois, decidi levantar e sair de lá. Fiquei encostado na parede que dava para o segundo portão interno, com um dos meus joelhos dobrado e o rosto voltado para o céu. Eu podia ver quatro nuvens, e uma delas tinha o formato parecido com o de um cão. O restante estava muito difícil de identificar, então desisti.
Cerca de cinco minutos mais tarde, senti alguém se aproximar de mim. Era alguém que reparava muito bem a minha atividade estúpida. Pelo canto inferior dos olhos notei que estava a fazer tímidos sinais com as mãos. Custaria pouco de minha vontade para vê-la sorrindo, mas optei por fingir não ter algum interesse ou curiosidade em lhe falar. Eu senti que sua boca começava a se abrir para me dizer algo, enquanto se aproximava. Tinha uma aparência de contentamento, surpresa, timidez e receio.
-O que vai ser?- pensei -"Olá", "Oi", "Ei", "É..."?
O que veio a soar nos meus ouvidos não foi nenhum monossílabo da costumeira comunicação entre estranhos. Ela me disse duas palavras, em total sinal de afeto e gentileza:
-Como vai?
Pôs um dos braços por cima do meu ombro, esticou-se um pouco em cima de mim e me deu um beijinho no rosto. Depois, com os dentes, beliscou de leve minha orelha, de um modo que me causou arrepios. Ela me puxou a ponta da orelha como se não tivesse ninguém por perto, como se fossemos íntimos de longa data. Pude até mesmo sentir o calor de sua respiração ofegante e a sua língua me tocar enquanto me mordia silenciosamente. Permaneci imóvel, chocado, e continuei a observar as nuvens. Antes que eu tomasse coragem e lhe desse uma resposta, já a enxergava bem longe de mim, caminhando vagarosamente, olhando bem nos meus olhos em todo esse tempo, ao passo que se afastava cada vez mais. Mostrou-me outro sorriso zombeteiro, e terminou por dizer:
-Olha, aquela ali bem na ponta parece um cão... Não é?!
-Eu também acho - respondi feliz e tímido, em agradecimento.
Voltei os olhos para cima e, em seguida, de volta para o corredor. A garota já havia sumido.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Alguém disse (2)

Amor, então
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


Paulo Leminski

Nadando

Por incrível que pareça,
talvez o melhor estilo
para um poeta moderno
seja o estilo clássico, ou
nado de peito. Ele exige
certa contenção. Você
deliza n'água mansa-
mente, como se hesitasse.
Ao atingir a borda, é
impossível virar cam-
balhota, daí talvez ele
ser chamado clássico, ou
quem sabe é porque é o que serve
melhor para se observar
o que se passa ao redor,
isto é, fotografá-lo, ou
-evitando anacronismo,

e já que falamos de água-
espelhá-lo, visto que o
espelho é por excelência
a metáfora do clássico.
Nadar é como uma cobra:
um constante enrodilhar-se
em pensamento por vezes
nada sublimes (que belo
traseiro ali adiante, etc.);
daí, em vez de estilo clássico,
talvez fosse mais correto
falar-se em mescla de estilos.
Nadar: um poema longo
em redondilha maior
com andamento de prosa
em que é difícil manter
o mesmo ritmo sempre

(Poe não dizia que um poema
deve necessariamente
ser breve?). Começa-se a
arfar, os músculos pesam,
respira-se irregular-
mente, o nado, apesar de
clássico, agora assemelha-se
a um poema moderno
(ou a um aprendizado),
um poema que tivesse
uma piscina por tema,
e um nadador que insistisse,
já que escrever poesia
(principalmente hoje em dia)
é uma espécie de nada.
Nada. Nada. Nada. Nada.

(João Moura Jr.)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O simbolista esquecido.


Eu encontrei na estante de livros do quarto do meu primo o livro A Obra Poética de Edgard Mata sem a menor intenção. Estava somente dando uma olhada, como dizem, procurando algo diferente para ler, aí achei essa pérola escrita por uma professora da UFRJ, em 1978, e que, talvez, nunca tenha passado por uma reedição.
Realmente difícil, missão semelhante a de sacerdócio, achar o livro de Cilene Cunha de Souza. Ela sim teve espírito de monja para pesquisar, escrever e divulgar um pouco sobre Edgard da Matta Machado, um poeta tão esquecido que, nas palavras da autora, ainda aguarda uma publicação em livro de sua obra, fragmentariamente conservada na tradição oral e em efêmeros jornais de seu Estado.
Edgard nasceu em Minas Gerais, na cidade de Vila Rica (Ouro Preto), mas viveu até sua morte em Diamantina. Filho de um Conselheiro e descendente de duas famílias tradicionais, aos vinte e poucos anos integrou o Grupo Simbolista de Belo Horizonte e participou da fundação do primeiro jornal literário de lá, o Lotus. Trabalhou em jornais, a exemplo do Comercio de São Paulo, onde publicava crônicas diárias sob o pseudônimo de Mário Corvo; mas certa vez foi advertido a respeito de ser muito fúnebre e lembrar Edgar Poe, como disse o editor do jornal, Afonso Arinos.
Após 1903, Edgard caiu em desilusão com a vida e passou a vagar por ruas, becos e botecos, sempre atrás de uma bebida que às vezes recebia em troca de pequenos serviços ou algumas improvisações poéticas. Sobre esse lastimável momento de sua vida, dizem os familiares e os poucos que o conheceram ter sido motivada pelas mortes repentinas de seus pais ou uma desilusão amorosa que teve ainda na adolescência: "Tinha sempre nos lábios os versos de Antônio Nobre:

E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!"

No mesmo ano de 1903 voltou à sua cidade e passou a residir com sua avó paterna. Em 1907, ele veio a falecer daquilo que popularmente se chama morrer de beber. Também por ser considerado o melhor gênio criativo do Grupo Simbolista do qual fazia parte, houve bastante pesar pela sua morte. Na lápide estão escritos, divididos em três partes, as informações básicas sobre sua vida e idade (Edgard da Matta Machado./Nascido em Ouro Preto, a 21-10-1878./Falecido em Diamantina, a 26-2-1907./Orae por elle), os poemas Estalactite e Ouvi-me, irmãos, ambos de sua autoria, e o poema Saudade, escrito por Maria Higina, que resume o lamento dos que o amavam.
Apesar de ter vivido seus últimos dias em dolorosa boêmia e ter definhado até quase não restar resquícios de suas faculdades mentais (sobre esta informação existem contradições), é bastante válido aos que pretendem conhecer um pouco mais da literatura brasileira, especialmente a fase do Simbolismo, uma mínima leitura das poesias e poemas desse autor mineiro; ainda mais quando se sabe que por ser extremamente raro esse contato com suas publicações (diversas queimadas estupidamente por sua tia que, acometida de insanidade, extingüiu a maior parte dos poemas - muitos ainda inéditos) e o fato de A Obra Poética de Cilene não ser tão acessível, deve-se, então, não esperar que o resgatem do esquecimento profundo.
Nossa gentil leitura talvez seja o mínimo que ainda se possa fazer.


Abaixo, os poemas que pude digitar e aqui publicar.
Façam bom uso, garotos!
;)


Memória I

São os meus versos de hoje uma elegia
A ti primeiro e derradeiro Amigo,
Fi-los pensando num luar antigo
Que evoca os sonhos das visões de um dia.

5. Peço por ti a Quem os astros guia
Preces e luares para o teu jazigo
E para aquela que numa agonia
Seguiu-te perto, se viveu contigo.

Teu pobre filho que deixaste exposto
10. No mundo - a roda da Desgraça, o espaço
Contempla, erguido, o lacrimoso rosto -

Compõe-te uns versos, mas, se os leva o vento,
Melhor fizera se galgasse o Paço,
Desfiando agora seu rosário bento.

Memória II
Ajoelhado, rezando a Oração Funerária,
Eu senti nesse dia a emoção do Deserto.
O olhar pairava além da região solitária
Vago como o de quem sonha embora desperto.

5. E nesse dia feral foge ainda tão perto
E com ele fugiu toda paz visionária...
Ah! visões tenho-as eu, mas em túmulo aberto
E os crepúsculos cristãos duma bênção mortuária.

Tudo mais se apagou. Fui viver num mosteiro.
10. E podereis talvez ver o Prior do Desgosto,
Mas não é nem Templário ou Monge Cavaleiro.

Procurai-o. Ele está sempre a rezar absorto
Na cela vesperal duma tarde de Agosto
A contemplar no Azul a aparição de um Morto.

Piedade Astral
Alma de lírios, sofredora e casta,
De angústias velhas que um luar consola!
Alma dorida que na terra esmola
Amplos repousos que o Nirvana arrasta!

5. Ah! tanta Dor indefinida basta
À tua estranha provação! Desola
Essa lamúria que em ti se evola,
Alma de lírios, sofredora e casta

Segue por essa solidão sem termo
10. Da esfera curva, procurando a Lua,
A sonolenta visionária do ermo...

Pois só a mansa Caridade etérea
Dos astros pode consolar a tua
Inconsolada e trágica Miséria!

Soneto
Olhos fitos no azul de tardes maceradas,
Quando o Sol vai morrendo e vem nascendo a Lua!
Olhos meigos, oceano onde manso flutua
O bergantim da Dor de Almas resignadas! ...

5. Sondando o teu olhar, vejo tua Alma nua,
Tão pura, mas lembrando estrelas apagadas
E um tom longínquo de longínquas alvoradas
E a sombra vesperal de uma lembrança tua...

Deviam ter assim os olhos como círios,
10. Voltados para o céu, de cima das fogueiras,
As Santas, no momento augusto dos martírios! ...

São olhos onde habita a Paz do cemitério,
Desiludidos como a chama das tocheiras. . .
Erram neles agora as sombras do Mistério! ...

Soneto
Tu, que eras para mim a aparição de opala,
A estrela vesperal de um crepúsculo imoto,
Sem as cores da vida ou harmonias de fala,
Partiste e hoje só vens como um sonho remoto.

5. Levaram-me, sem só, pelas sombras de vala,
As mãos cruzadas sobre o peito - o extremo voto -
E a pupila, que tinha algum sonho a nublá-la,
Guardava o áureo fulgor do teu olhar devoto...

Morreste; mas na Morte os teus triunfos eternos:
10. A tua carne volta imaculada e pura
Em vagas sugestões de outonos e de invernos! ...

És bela eternamente. E eu sinto as Primaveras
Quando numa visão o teu olhar fulgura
Longinquamente triste, a desvendar Quimeras...

Mors Amoris
Dias tristes virão, tristes e sonolentos,
Sepultar nosso amor num tédio de cegonhas...
E tudo que hoje vês, tudo que amas e sonhas
Há de morrer no "spleen" desses dias nevoentos.

5. Os lábios que hoje beijo hão de dizer lamentos,
Muito embora ao desgosto o antigo amor oponhas.
Hão de soar na tua alma harmonias tristonhas
E os salmos de saudade e horas de desalentos.

O teu olhar de luar embebido nos Poentes
10. Terá, na Ave-Maria, o empalecido lume
Dos círios a alcançar a agonia dos doentes.

Partindo, levarás toda a lembrança tua!
Que ficarei também sem saudade ou queixume,
Como o Sol que abandona sua noiva - a Lua...

Assistência Póstuma
Quando ao meu triste olhar as sepulcrais Vidências
Mostrarem-se, rasgando os ninhos do Mistério,
Meu corpo dormirá num velho cemitério,
Abandonado ao luar das outonais plangências.

5. E ali, morrendo um Sol, em pálidas diluências,
Nesse abandono sacro e vesperal e etéreo,
Há de velar-me a tumba algum olhar sidéreo,
Um Astro de Piedade e de imortais Essências.

E este Astro foi meu guia em pávidos desertos
10. E teve sobre mim, constantemente abertos,
Os paliuns siderais das proteções terrenas.

E quem me aconchegou nas solidões do Inverno
A cova há de vestir, num grande amor paterno,
Da estranha maciez de arminhos e de penas.

Soneto
Caiam Paliuns de paz e proteções terrenas
Sobre os que vão na terra entre ilusão e a mágoa,
Mãos para os céus voltando e os olhos rasos d'água
Numa alucinação de agruras e de penas.

5. Flutuam no passado, em soluções serenas,
Cipestres a carpir, ondas batendo a frágua. . .
E lá para o Futuro, onde a ilusão deságua,
Descerra pelo Azul a pálida Açucena.

Tudo tombou assim, como castelos vagos. . .
10. E o que virá depois desses tristonhos dias
Serão a mesma dor e o mesmo azul aziago?

Horas que não vêm mais, já sepultadas longe. . .
E venha agora a Lua, entre mortalhas frias,
Iluminar na estrada o solitário Monge.

Enfermo
Enfermo. . . e os olhos pálidos descerra
Tão fatigados e tão cismadores,
Que uma visão de sonolências erra
A pressagiar misteriosas dores.

5. As faces têm esbatidas cores
Do luar de Agosto num país de serra. . .
Há no sorriso que um lamento encerra
Um poema ignoto de saudade e amores.

Tudo é sereno neste estranho enfermo
10. E no fulgor do seu olhar tristonho
Sentem-se as velhas nostalgias do Ermo.

Fala. . . e a palavra é tão solene e mansa
Que penso que anda o derradeiro Sonho
A povoar-lhe as solidões da Esp'rança.

Êxtase
Das solidões do Azul iluminadas
Vinham descendo procissões piedosas
De anjos e sonhos e visões aladas
Com grinaldas de estrelas luminosas.

5. Desciam por quiméricas estradas,
Tapetadas de lírios e de rosas,
Como Santas e Monjas lacrimosas
Do mosteiro de plagas consteladas.

Flutuavam no espaço sonhos calmos,
10. Harmonias e cânticos e salmos
De invisíveis espíritos etéreos...

Nessa hora, ao meu absorto olhar tranqüilo,
Desvendou-se o sublime Peristilo
Do Castelo brumoso do Mistério...

Esmola
Senhora! pelos áridos caminhos,
Vós já vistes, decerto, mendigando
Um velho maltrapilho, soluçando,
- Filho da raça espúria dos mesquinhos.

5. E vosso olhar, que é feito só d'arminhos,
Perde os fulgores rutilantes, quando
Se vos depara um mísero chorando:
E abre-se então a urna dos carinhos.

E neste hora, nas pálpebras divinas,
10. Andam lágrimas puras, cristalinas,
Como um diamante raro do Oriente...

Eu vos peço, também, a minha esmola!
Lançai-ma aqui no coração - sacola:
- Um raio só do vosso olhar ardente!

Outonal
Por entre as quaresmais micerações do outono
Minha Alma peregrina anda perdida agora,
Pois se ela tem a mesma paz, o mesmo sono
E a mágoa vesperal que pelos serros chora...

5. As folhas vão tombando, assim como quimeras,
Das árvores da Crença em nosso coração:
Percebe-ce a saudade astral das primaveras
A florescer roxeada em toda Solidão.

O sonho foragido, o bergantim dourado
10. Lá vai cortando o oceano intérmino das mágoas...
- Olha a tristeza de um castelo abandonado
E a mansa quietação simbólica das águas!

Já não mais brilha o luar sonâmbulo nos ramos,
Não cantam rouxinóis - os pássaros celestes.
15. Tudo foi feito para quando amamos,
E o nosso amor repousa à sombra de cipestres.

Onde anda o teu olhar nostálgico buscando
A luz do meu olhar que tu abandonaste?
O lírio sideral desta paixão, murchando,
20. Vergou-se lentamente e separou-se da haste.

Agora só me resta a tênue claridade
Escassa desse olhar distante, que não vejo...
E floresceu magoada e triste uma Saudade
Na fronte em que deixaste o teu primeiro beijo.

Versos
Falo-te, agora, na surdina mansa
Das vozes de um luar incompreeendido
Não vale mais tua bela trança...
Tudo no mundo, tudo, é já perdido.

5. O sonho abstracto que sonhei um dia
Desfez-se como as brumas do levante,
Passam por mim fantasmas da Agonia,
Pois todo o riso já vai tão distante! ...

Nem Conventos, nem Trapas, nem Calvários
10. Têm para mim largas e abertas portas!
Visto o bioco dos monges solitários
Na comunhão final das coisas mortas.

Tudo passou. E as cinzas do Passado,
Leva-as o vento para Nunca-Mais...
15. Dona Triste, do olhar amargurado,
Quem sabe o dia em que me encontrarás?

Contam que existem, muito além da Terra,
Vagos países de abandono;
Quando acabar a guerra,
20. Vai começar a noite e o luar meigo do sono...

Crianças
Eu, que tenho a alma triste, a alma desolada,
Viúva d'ilusões, vazia d'esperanças,
Gosto de ver sair da escola, em revoada,
O bando folgazão e alegre das crianças.

5. Espíritos que a luz da infância inda ilumina,
Meninos que viveis no mundo das Quimeras,
Almas que têm o meigo aroma da bonina,
Flores, desabrochando ao Sol das primaveras,

Contemplo-vos agora e fico-me a pensar
10. Que a alegria franca, essa alegria azul,
Vos há de a todos vós um dia abandonar
- Nevoeiros que desfez a viração do Sul!...

Estalactite
A gota vagarosa,
Infiltrada no dorso hirsuto da montanha,
Atravessa da gruta a abóbada porosa
E forma lentamente incrustação estranha.

5. Também na alma humana
A lágrima cruel, caindo dia a dia,
A lágrima que gera a negra dor insana
Forma a Estalactite enorme da agonia.

D. QuixoteO esguio D. Quixote, o altivo herói andante,
Viver a combater a iniqüidade e o mal.
Em seu cérebro, então, surgiam, delirante,
Aventuras de amor, combates sem igual.

5. Foi assim que ele teve o encontro dos moinhos,
Que numa hospedaria o armaram cavaleiro,
E que encontrava sempre, à beira dos caminhos,
Aventuras iguais à do elmo do barbeiro.

A imagem gentil da Dulcinéia amada,
10. Iluminando aquele espírito doente
Para a conquista ideal da glória desejada,
Ao herói emprestava um desespero ardente.

E enquanto ele viveu nas alucinações,
A combater heróis e perseguir gigantes,
15. O pobre cavaleiro altivo dos Leões
Sofria calmamente as dores irritantes!

Mas, quando, fatigado, em mortuário leito,
Voltando-lhe a razão, o Sonho conheceu,
Um ai entumeceu-lhe o emagrecido peito
20. E o grande lutador, a suspirar, morreu...

Eu tinha como ele um ideal, Senhora!
Vivia da quimera azul do nosso amor:
O sonho se desfez; e só me resta agora
Aspérrima saudade e truculenta dor...

sábado, 19 de julho de 2008

Banksy *






Não se sabe nada a respeito de Banksy. Ninguém jamais viu seu rosto, sua pele, cor ou altura; nem sequer ouviu sua verdadeira voz. Contudo, o grafiteiro britânico de maior impacto nos últimos anos já teve sua obras expostas em galerias de arte, leiloadas em sites e diversas reproduzidas em milhares de camisetas.

Sabe-se que a intenção de Banksy é chocar. Através de uma cena armada, juntando objetos e personalidades comuns a todos, passando por acontecimentos diários e pouco significantes até os mais violentos, Banksy deixa sua marca, sua personalidade criativa e opinião subversiva expressas, talvez esperando que tenhamos um olhar crítico o suficiente para intervir no desarmônico conjunto social no qual vivemos.

Não é difícil para o espectador sentir-se atônito ante a garotinha vietnamita da obra "Napalm" - "bem" acompanhada dos mal intencionados Mickey e Ronald - , impotente ante aos sinais de um futuro apocalíptico em "Jack and Jill" (Police Kids), ou até mesmo horrorizar-se com a pseudo-cristandade de uma sociedade ocidental consumista em "Christ with shopping bags" .

Incisivo e altamente recomendável.


# Banksy é o único artista de rua em Bristol, sua cidade, a ter seus trabalhos reconhecidos pelo governo local. E nenhuma obra sua foi apagada;
Banksy, sobre seus pais e a sua profissão: “Eles pensam que sou um decorador e pintor”.

Microcosmos


Microcosmos: Le peuple de l'herbe
Microcosmos: Fantástica Aventura da Natureza, como foi traduzido em bom Português, teve sua realização completa no ano de 1996. Durante seus 30 minutos -e nada mais- este pequeno documentário sobre a vida animal reune cenas diversas de um verdejante prado localizado em algum lugar da Terra.
Nossos heróis não são super estrelas: tratam-se de insetos e outros poucos animais selvagens que, entre seus minúsculos mílimetros de comprimento (até dois ou três centrímetros, em média), realizam o seu exercício mais natural.
Tudo está mantido sob o conceito de microcosmos, possibilitando a cada espectador assistir ao nascimento, crescimento, reprodução e até mesmo à morte, numa constatação inusitada sobre o que é Universo, suas dimensões, etc.
Em suma, a existência não passa de uma percepção de cada espécie; e isto significa que se para nós, por mero exemplo, uma simples gota de água é nada mais que desprezível, para um outro conjunto de seres vivos muito pequenos a mesma é como um oceano.

Uma hora é como um dia, um dia como uma estação, uma estação como uma vida inteira.


O brilhantismo deste espetáculo dos Microcosmos reserva ao espectador bons momentos de curiosidade, espanto, descoberta, beleza e simpatia. Um vídeo primoroso, sem intervenções ou comentários de narração onde, salvo alguns minutos de música e o rápido monólogo de apresentação, tudo acontece naturalmente e assim permanece.

Vencedor do prêmio Cesar de 97 (Som, Fotografia, Trilha Sonora, Montagem e Documentário), com a produção de Jacques Perrin, Christophe Barratier e Yvette Mallet. Direção de Claude Nuridsany e Marie Pernnou. Absolutamente válido e, talvez, inesquecível.

"Mas, para aproximar-se deste mundo, tem-se que aprender a silenciar e escutar seus murmúrios..."

quinta-feira, 17 de julho de 2008

{5}

Em casa, minha mãe e eu. Deitado no sofá, assistindo a um filme péssimo na tv, vejo minha mãe tirar da bolsa o último Ice Kiss sabor canela. Mamãe decide dar uma lida na embalagem do confeito:

- Uhn. Deixa eu botar meus óculos pra ver o que tem escrito.
- O que é?-
pergunto.
- Ãn... Diz "Na sua vida o dê jota é você..."
- Na sua vida o dê jota é você?... ô. Aaaah!... Na sua vida o DJ é você! (rindo muito)
- Ahaha DJ, é?
- É."Di Jêi". Entendeu? Tá em Inglês. Aquele cara que passa música em festa, em show... sabe? (rindo muito)
- Ahhh siiiiiim. (rindo muito)
- "O dê jota"... por isso eu achei estranho. (ainda rindo)
- Ai, e como é que eu vou saber? Eu não entendo nada desse negócio de Di Jêi. Outra geração, né (risos)
- Haha. Aiai, mãe... a senhora é demais. - :)
- Hauahua - :D

{4}

Na Internet, durante uma conversa sobre qual disco seria mais pesado, Nevermind (Nirvana) ou Fun House (Stooges), vieram várias respostas. Toda uma conversa sobre influência, originalidade e aquele papo técnico que já é de costume, mas nada realmente convincente pra desempatar a disputa.
"O melhor é Nevermind";
"Cês tão maluco, cambada?!! Fun House, claro!".
Quando se fala de Rock, nunca se sabe realmente o que se quer dizer com pesado. Um termo dúbio, sabe? Seria o quê? "Agressivo"? (Continua dúbio). "Furioso"?... "Cru"? (eca!). Aí, no meio daquela confusão entre fãs e fãs, alguém manda uma mensagem tosca e ao mesmo tempo suficientemente lógica pra fazer a galera rir:

"Sim. Realmente, Funhouse é mais pesado.
Tire suas dúvidas:
Funhouse : O LP pesa 315g, o CD, 148g;
Nevermind: O LP pesa 297g, o CD, 145g.
Fonte: INMETRO, abril de 2003.
haha"

Bobagem de primeira.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

"É um prédio curioso... quando se vê de longe..."


Todo como uma rocha, uma pedra única de cimento e barro, parece que algum dia ele vai despertar e sair andando dali. O lugar? Qualquer um menos aquele. Mas eu gostava de ficar embaixo dele, sentado num banco de cimento pregado no corredor externo do térreo. Meu pai e eu passávamos bons tempos lá. Eu levava a minha bicicleta velha, toda em pedaços, que eu tinha na cor azul, ou pegava emprestado a do meu pai e passava horas a correr pelo Campus, dando voltas e voltas, e mais voltas. Depois eu voltava, sentava ao lado do meu velho e ouvia seus discursos sobre a Bíblia Sagrada e as histórias, verídicas ou não, que lá estão escritas. Até me lembro que discordávamos de diversos pontos. Sempre achei que o meu pai fosse fundamentalista demais - e de fato ele é. Já ouviu a expressão "A Bíblia é a sua espada"? Pois então, isso resume tudo que estou contando - . Mas o meu pai era muito bom mesmo em contar histórias, e me surpreendia quando descrevia detalhes dos acontecimentos finais do mundo, ou quando contava as historinhas de Davi, Sansão... Jeremias, Cristo, e muitas outras que eu costumava ouvir toda manhã de domingo na igreja.
Depois de respirármos bastante ar puro, às vezes dávamos voltas sem rumo certo. O que bastava era andar, fosse por ali ou acolá. Andávamos, só isso. Certa vez ele subiu numa árvore cheia de azeitonas roxas, formigas e tudo mais, apenas para pegar os frutos. Ele sabia do meu gosto, e por isso foi até lá, mesmo que lhe custasse tomar algumas mordidas. Para ele não importava a dor, o esforço mínimo ou gigantesco que fosse. Assim, eu não lembro de uma só ocasião em que ele não tentasse me ajudar. Seu contentamento esteve todo tempo em me ver feliz. Certa vez, juntos, nós criamos duas pipas e ficamos durante horas brincando em frente ao CFCH, numa área verde. Foi nesse mesmo dia que minha pipa se deixou levar pelo vento forte e entrou numa sala do décimo ou décimo primeiro andar, não sei. Uma mulher pôs o rosto para fora da janela, fez um xingamento e depois entrou. Salvo o desastre, a situação teve muita graça. Meu pai e eu rimos durante horas, e acabou que sempre no meio de uma conversa qualquer, vez ou outra, ríamos novamente, lembrando e relembrando a desgraça da magnífica "pipa assassina". Aqueles dias sob a sombra do titã de pedra nos fizeram bem, pois jamais terminou de outra maneira que não fosse a mais agradável.
Às vezes eu subia e descia pela esteira que leva ao primeiro andar e que hoje está desativada. Corria para ver a turma da primeira sala, soltava gracinhas e retornava ao térreo. Nessas situações, os alunos prestavam bastante atenção em mim... acho que gostavam, mas, nem sei porque nunca mandavam seguranças falarem comigo; nunca havia alguém para me tirar dali. Contudo, na primeira vez que os garotos me olharam fiquei preocupado, pensando que talvez eu estivesse mesmo errado em ir até lá. Enfim, essa história nunca deu em nada.
Nos últimos dias eu pensei nas coincidências daquele tempo e o de agora. Exatamente porque foi nessa mesma sala perto do final da esteira que eu tive minhas primeiras aulas do curso de História. Eu apenas era um pequeno brincalhão, jamais havia pensado em estudar ali, naquele prédio. Na época eu devo ter pensado em ser um bombeiro, motorista, astronauta... Historiador? Háh! Isso não entra na lista do "quero ser quando crescer". Foi assim que eu descobri o que os moços simpáticos tanto faziam por lá. Coisa que nunca fiz ou ousei fazer foi entrar no prédio. Eu pensava que era preciso credencial, ou, sei lá... ticket, talvez. Nunca mencionaram comigo nada a respeito do ambiente interno do Centro. Fiquei mais ciente disso ao longo do curso, e desde que eu inicei só tivemos professores bem loucos. E nós temos professores bem loucos! E - será possível?! - nós teremos professores ainda mais loucos!
Quando me debruço na janela da sala vinte e um às vezes esqueço do tempo... às vezes me lembro um pouco, ainda cheio de falhas na memória, do meu tempo infantil, dos meus "dias de esteira", da sala onde entrou a pipa e que hoje talvez seja a mesma da professora de Brasil V (que ela não saiba disso :D). Lembro mesmo é do tempo ganho, e não perdido, sentado junto ao meu pai no banquinho próximo à entrada do Centro. Sentado nos bancos de praça que estão no meio do corredor do segundo andar eu fico voando, como se tentasse refazer o nosso quase ritual familiar dos fins de semana... tomando o vento que corre da janela até onde estou, dialogando bobagens com os amigos mais próximos e os mais distantes. Abro meu sorriso tímido e reflito: "A vida é boa".

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Alguém disse.



"Toda sociedade é um sistema de interpretação do mundo; e, ainda aqui, o termo 'interpretação' é medíocre e impróprio. Toda sociedade é uma construção, uma constituição, uma criação de um mundo, de seu próprio mundo. Sua própria identidade nada mais é que esse 'sistema de interpretação', esse mundo que ela cria. É por isso que (da mesma forma que qualquer indivíduo) ela percebe como um perigo mortal qualquer ataque a esse sistema de interpretação; ela o percebe como um ataque contra sua identidade, contra ela mesma."

Cornelius Castoriadis

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Monalisa teve um Orgasmo¹



Sempre nos perguntavam nas aulas de arte se tínhamos idéia sobre o que os pintores mais importantes de cada movimento e escola de pintura teriam concebido antes ou durante a produção de suas respectivas obras. Custo a ter certeza, mas acho que o ponto crucial desses exercícios era despertar nossa criatividade adolescente ainda adormecida, ou pelo menos obter simples respostas. Mas tudo bem.
Durante a aula sobre Renascimento, chegamos a comentar sobre a importância de Leonardo Da Vinci na cultura secular. Na época, nem sequer cogitávamos sobre o Código; filmes, livros de hoje, pérolas de Dan Brown, etc, muito menos que o nome Da Vinci seria, mais uma vez, tão falado e sussurrado pelos cantos e ruas (Nem eu sabia que existiria um personagem de nome igual ao meu naquele bendito filme com o Tom Hanks). Houve muita agitação durante a semana, e ficávamos à espera de saber cada historinha do multi-homem, o Léo, aquele irmão, quase chegado nosso. Hoje eu fico imaginando como a professora Leila conquistava nossos sentidos, sendo capaz de tornar um assunto tão chatinho, sem sal, em algo delicado e atrativo. Aquela mulher era fantástica - é apenas o que sei -, tanto que se tivesse uma filha trataria logo de pôr o seu nome de Leila; ou, se não fosse possível, pelo menos um apelidinho carinhoso... Lêlê, lélé. Fica bom assim. Leila é nome de música, coisa que amo muito.
Mas Leila nunca quis saber de maiores conversas. “Respondam! Ponham o cérebro pra funcionar, crianças...”. Odiava quando ela dizia crianças, com aquele tom desafiador, do “agora quero ver”. Às vezes ela chegava ao ridículo de querer, por exemplo, um desenho nosso sobre uma casa muito engraçada que não tinha teto e não tinha nada. Tanto fez, que recebeu de mim apenas uma folha em branco. "Não tinha nada, lembra?", foi o que eu disse.
Algumas pessoas arriscaram dizer que poderia ter sido uma piada, mas logo tomaram banho de água fria, porque “se fosse piada, Monalisa estaria explodindo em riso, e não com aquela carinha delicada”. Teve gente dizendo ser apenas pose para a pintura, mas essas pessoas nem tiveram vez ou réplica da professora. Ela não era disso de aceitar fácil uma explicação, e as mais bobinhas não tinham espaço. Mas aí eu comecei a levar a sério o desafio. Pus meus olhos fixos na reprodução da folha impressa que circulava na sala de aula, de mão em mão, e fiquei imaginando. Reparei bem o trejeito de Mona, observei em que época teria vivido e liguei tudo isso ao seu comportamento, que não deixava de ter sua graça. E mais graça ainda ao pensar que parecia transparecer um ar de molecagem, ou coisas que ela não deveria ter pensado naquele momento e que, ainda assim, pensou. “Esse risinho é um pouco safado... parece que ela... ei!”. Cogitei algo, mas salvei a excitação daquela observação e mantive minha opinião guardada para o instante em que Leila me questionaria, preparada para refutar minha resposta, fosse qual fosse.
No centro da sala, alguém comentou sobre algo: “Não é bem assim”, ouvi Leila responder. “E aí, Silas, o que você acha?", olhou bem para meus olhos e mandou essa. Tinha chegado a hora, e eu, já ciente do que poderia acontecer, mesmo assim respondi: "Ela... Monalisa... a Monalisa... ela..." - suando frio, as mãos gélidas - "Monalisa teve um orgasmo!" - soltei rapidamente, sem mais duvidar.
Nem preciso dizer (ou preciso?) que depois disso eu mal consegui andar de um canto a outro daquela bendita escola sem que eu fosse lembrado como o cara do orgasmo; nem que durante aquela aula não pude concluir meu raciocínio sério diante de tamanha festa, choro de alegria e muito mais. Riram tanto quanto foram capazes, e no tempo de uma semana inteira de aula eu fui o alvo. Faltava-me somente algo do tipo kick my ass preso nas costas.
No último ano de estudos, a 8ª, as seqüelas nem haviam sumido direito. Sempre havia um que, relembrando situações engraçadas, fazia menção ao ótimo “caso Monalisa”. Aliás, no fim daquela aula memorável, Leila apenas conseguiu me contar que a minha resposta havia sido a mais... mais de todas as que ela teria ouvido até então. Quando pude comentar a respeito, meses mais tarde, e fizeram questão de me perguntar o porquê de tal conclusão, respondi simplesmente com as palavras mais naturais e claras que me vieram à mente:
“Eu achei que deveria focar o sorriso sem esquecer Monalisa, a mulher, a pessoa com as sensações que todo mundo tem. Depois disso, por ser tão enigmático, a ponto de provocar discussão quase sem fim naquela aula, eu achei melhor ter uma resposta pra todo mundo discutir. Claro que não pensei, de cara, que teria a ver com sexo. Não sou tão bom assim, nem posso dizer que sou o tal. Aí eu mirei a foto bastante enquanto ia escutando as respostas. Todo mundo respondendo assim... na lata. Até que me veio uma idéia rápida sobre a época de Monalisa, de Da Vinci... um mundo ainda protegido, bastante machista. Aquele mundo onde as mulheres não podiam sentir ou, pelo menos, aparentar prazer. Foi quando me veio na cabeça o sexo. Prazer-sexo. E eu fui ligando uma coisa com a outra, até rever aquele sorrisinho safado e imaginar o famoso orgasmo. Aquilo ainda tá na minha cabeça: orgasmo. Sorriso-prazer... é isso”.
Até que a justificativa pareceu boa, suficiente pra que armassem carinhas de pensamento. E todos eles se contentaram com a explicação. Alguns deles ainda riram; outros até concordaram... Mas eu ainda acho que teria melhor sucesso, como uma boa amiga certa vez mencionou, se dissesse que Leonardo da Vinci, no decorrer de suas pinceladas (no bom sentido, claro), talvez estivesse nu. Vai saber.

¹Olha bem pra essa carinha e me diz que não!

sábado, 21 de junho de 2008

"Entrar na Mente"


Muitos estudiosos nos contam que para convencer uma pessoa com quem você pretende ficar é preciso "entrar na mente". Mas o que isto seria? Exemplos são bem simples, mas de pouca relevância - como sempre. Vários homens cometem falhas nas suas tentativas de "entrar na mente", com perguntas do tipo: "você vem sempre aqui?" ou "te conheço de algum lugar?". O fato é que a técnica de "entrar na mente" é universal, e pode ser aproveitada em situações diversas com público diferenciado, não importando se você quer conquistar aquele garoto... ou aquela garota.
Coisa importante é lembrar que jamais devemos perguntar, por exemplo, se o cachorrinho da moça tem telefone. Bem, isso pode até funcionar se for o cachorrinho dele, até porque -estupidamente divertida esta quase obervação científica- os homens estão mais sucetíveis às frases de efeito que eles mesmos usam. [Sinceramente, o criador dessa cantada deveria estar preso, em pena perpétua !]. Mas deve ter seus efeitos. Não haveria sentido em usá-la caso não tivesse funcionado com alguém em alguma vez por aí, num lugar muito muito distante (ou não)
Agora falando por mim: eu não gosto de usar esses métodos; não com seriedade. Quando me refiro à seriedade eu quero me referir a atitudes sinceras minhas de querer demais ficar com alguém, que é quando a gente deseja o bem e tem vontade de cuidar, proteger, entre outras coisinhas. Posso brincar com uma amiga, fazer graça, isso quando não há sentimentos de puro amor ou paixão. Nessas situações isso só é parte dos mínimos detalhes diários que usamos vez ou outra a fim de divertir alguém muito querido. Uma amiga confidente, quem sabe, sem nenhum desejo de ofender sua inteligência ou parecer idiota.
Estive com amigos e vi todos os lances, e acho que o problema não é ser original, muito menos criativo. O X dessa problemática é que os homens usam demais o seu Y. Eles não se permitem sentir. Chorar, então, é algo super difícil (Tá, horrível isso. Mas é importante e necessário ser natural). Para que possam dizer o que na verdade pensam sobre elas é ótimo que conversem melhor, o que não significa mais. A vida é como o vento. Podemos assim entender que as relações têm demasiada tendência, sobretudo com as agitações diárias típicas do nosso momento histórico, a resumirem-se a instantes prazerosos. Fora isso, apenas o tédio.
Importa que as pessoas se amem melhor, já que não se amam com freqüência. E mais uma coisa: a realidade é que este mundo vem sendo dominado por dois grupos de gente: as crianças e as mulheres. As crianças, porque o universo adulto, hoje, é servo de aspirações infantis, e os pais de agora só conduzem o jogo familiar na teoria.
Sério! Crianças conseguem de tudo através de sugestão semi-hipnótica. Chorando, então, são mortais. Já viu um adulto ficar sob o domínio delas? Eu também.
"ôôôuuu, meu querido, fica assim não... papai vai comprar", "mamãe vai te dar um sorvete", "tome. iiiisso, dê um beijinho no papi. ôoouuunn". Mas as mulheres que aproveitam de semelhante poder gozam de resultados gloriosos; e nada consegue ser melhor para essas mulheres do que tê-los, os homens, sob controle incondicional. Todos os homens são bobinhos por natureza. Bobos, quando se apaixonam; bobões, quando amam. Tudo nesta ordem. E se as mulheres se comportam como crianças e investem nisso, as conseqüências do ato tomam proporções gigantescas.
"Você não gosta mais de mim... não é?", "Você nunca faz o que eu quero...", "Você diz que me ama, mas eu sei que não!". É, meu caro, as mulheres também tem suas frases de efeito. Sempre.
"Entrar na mente" consiste saber como os grupos humanos se comportam, dividem tarefas e se arriscam para alcançar suas metas. Sair à noite para se divertir, sempre mais de um, faz parte de um plano. Convidar para dançar, oferecer uma bebida, chamar para sentar à mesma mesa...
Eles perguntam; elas dizem não. Eles insistem; elas se fazem de difíceis. Eles dizem palavras sem sentido; elas riem. Eles avançam para roubar um beijo; elas se afastam dando em troca, quem sabe, um beijinho no rosto - Ah, beijinho no rosto... isso é mau, muito mau! {risos}
E assim as pessoas seguem o curso natural e saudável de suas existências. :)