terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nós estamos de Férias


sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Final/Semana



Se você consegue se sensibilizar e - embora haja, às vezes, algum lance chato - se sente feliz consigo mesmo. Ou se você costuma ter pensamentos bons sobre seus amigos de infância, como um daqueles filmes coloridos e leves de sábado à noite: então, "Glow!" tem a sua cara. :)
Um ótimo final de semana!

"O mundo é um lugar perigoso de se viver... Não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam o mal e simplesmente permitem que ele ocorra".

- Albert Einstein

sábado, 18 de julho de 2009

Lembranças

Acima: Uma das primeiras capas de dreaming-boy!



Olá!

Saudade de vocês ^^

Faz muito tempo que não apareço por aqui. Mas não foi porque o meu lápis voltou a ter ponta (referência ao endereço do blog), e sim porque nos últimos tempos resolvi me dedicar a uma história insana e meio autobiográfica chamada dreaming-boy!.
Esse livro (e é o tipo de texto que eu pretendo fazer sobre o garoto sonhador) tem o título, em parte, inspirado no Nemo (favor, olhar os primeiros posts do Lápis) e uma sintonia fina com o universo dos quadrinhos, do rock e toda literatura sarcástica e underground que possa talvez existir.
Para os que ainda aguardam novos posts, não desanimem: o dreaming-boy! já terá sua primeira edição em Agosto.

Meus agradecimentos a todos que lêem e gostam das minhas conjecturas cômicas e sensíveis em forma de palavra escrita (ou digitada, se preferirem, já que eu sempre darei um jeitinho de quebrar a ponta do meu lápis de madeira, só pra poder colocar minhas ideias aqui :-) ).

Como estou sempre inebriado de saudosismo - e especialmente para lembrar os bons tempos de infância - ouçam essa minha sugestão musical: Pavement - "Terror Twilight". Esse álbum é ótimo! ^^

Abraços e beijos!

"A música está em tudo. Do mundo sai um hino." - Victor Hugo

sexta-feira, 8 de maio de 2009

"Sonetando"



"Enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, este esquisito,
este invisível vulto, apenas visto
quando o vento, de leve açoita as folhas.

Enquanto a lua for calada e branca
eu serei sempre o mesmo, apenas visto
quando um raio de sol morre na lágrima
que se despede de uma folha verde.

Eu serei sempre assim, apenas sombra,
apenas visto quando a voz de um gesto
colhe no bosque alguma flor azul.

Apenas visto quando em fundo azul
voar a garça (o meu adeus ao mundo?),
enquanto a lua for calada e branca."

quinta-feira, 23 de abril de 2009

"Winter" *










"Há pessoas que amam o poder, e outras que têm o poder de amar."

- Bob Marley

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009



"Quando eu era criança, eu costumava rezar todas as noites por uma bicicleta nova.
Então eu percebi que Deus não trabalha dessa maneira. Então eu roubei e orei pedindo perdão
."

- Emo Philips

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Verão


sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Coma



Descrito,
(re) produz as extravagâncias.
Vida
real
Personagem
de fazer-pensar.

Palco
estranho.

O ator,
a televisão,
dependentes químicos.
Calígula,
os Mandamentos,
as últimas semanas...

O verbo contra a carne:

é a porção que toma
para si
a máxima
do ser que encarnou.

sábado, 13 de dezembro de 2008

... e foram parar na casa dos loucos.



Para Daniele Jardim, meu anjinho-irmã


Calor da tarde: o mais incômodo do dia. Andar por inúmeras lojas, sem se proteger debaixo de um pouco de sombra, nem tomar um delicioso refresco, era quase como cometer suicídio. O garotinho caminhou nos mesmos passos da mãe. Foram juntos descansar no interior de uma loja americana de doces, roupas e eletrônicos bem próxima ao centro da cidade. As pessoas, todas apressadas e preocupadas com a enorme fila de pagamentos que se formava no térreo do prédio, esbarravam umas nas outras, sem avisar ou pedir desculpas.
O garoto e sua mãe pisaram os degraus da escada rolante da loja, seguindo rumo ao departamento de brinquedos e vídeo, onde a mamãe logo cuidaria de averiguar os utensílios para o lar num tempo suficiente para que o garoto pudesse experimentar os brinquedos que sonhava em ter e que jamais poderia comprar. Os discos desorganizados nas estantes à esquerda, no departamento de áudio e imagem, também interessavam ao garoto: correu para ver o quarto disco do Led Zeppelin. Infelizmente, tudo caro.
É curioso observar que o mais incômodo acontecimento que há em nosso corpo humano é, talvez, a sensação de descontrole, e é impossível estar feliz quando se tem uma súbita e inadiável vontade de ir ao banheiro. Por mais que nos concentremos em fantasias sexuais para driblar a vontade de fazer o número 1, a dor é mais forte... e a bexiga, os rins e a uretra protestam veementemente: "Libertem-no! Libertem-no! Libertem-no! ...".
O garoto se encontrava muito distante da mãe. Resolveu procurá-la para avisar aonde ia e, assim, tranqüilizá-la.

- Até que o banheiro dos homens está vazio... - o garoto falou para si mesmo - Mas que engraçado... eles todos estão entrando no banheiro feminino. Bando de malucos... ou tarados! Será que é apenas para funcionários?

Decidiu arriscar, antes que acontecesse uma explosão. Caminhou até à porta e leu o aviso: "Por favor, não utilizar o banheiro masculino. Estamos em teste de segurança”.

- Ahhhhhh, droga! Isso só pode ser gracinha do pessoal da loja... - irritado, disse o garoto - Mas eu vou morrer!

Parou, tentou segurar ao máximo aquele impulso orgânico e decidiu adentrar o palácio proibido, já esquecido do aviso amarelo pendurado na porta.
Girou a maçaneta, vagarosamente, e, como numa comédia de sessão da tarde, os alarmes logo exaltaram sua falta de discernimento para lidar com a estúpida decisão tomada. Um repentino medo o assombrou, diante dos olhares acusadores. O garoto procurava desesperadamente encontrar sua mãe e fugir da cena do crime.

- Mas o que você fez? - a mãe indagou
- Nada! Eu só precisava ir ao banheiro, e aí um alarme tocou.
- Tá, vamos embora! Mas preciso levar esse presente. A gente desce e tenta pagar, mas só se a fila estiver pequena; se não, deixo lá. Ai, meu Deus...!

Os dois apressaram os passos e desceram as escadas, seguindo rapidamente para a fila, enquanto o alarme continuava a tocar tão alto e assustador quanto o ritmo do coração do garoto. A boca aberta, o olhar vidrado, as mãos trêmulas e a vontade desesperada de sair o mais rápido possível do estabelecimento. A fila parecia maior ainda, aos olhos do garoto, como um novo tipo de corredor da morte interminável. Para uma criança assustada como ele, o simples girar de uma maçaneta e o soar de um alarme de segurança seriam suficientes para prendê-lo pelo resto da vida. O garoto só conseguia imaginar uma cara endiabrada de um juiz muito gordo e de barba grisalha, voltando-se contra sua pequenice, e gritando: "Culpado!”.
Os trinta segundos que se passaram logo depois da visão afligiram seu ser. A mãe pôs a xícara colorida no caixa, observou o preço da caneca, esperou a nota fiscal sair e procurou os dois reais e noventa e nove centavos guardados na bolsa, universo feminino. Absolutamente apavorado com aquele caos, o garoto arrancou uma cédula de cinco, puxou o braço direito de sua mamãe, olhou para a funcionária e disse:

- Pode guardar o troco!

Caminharam aproximadamente dez metros rumo à saída principal da loja, logo depois seguindo para o ponto de ônibus mais próximo. Ao longe, duas viaturas policiais e um carro-forte da empresa de segurança da loja chegaram para conter os criminosos. Mais aliviado, os dois conversaram sobre o caso:

- Nossa... que susto. Ainda bem, passou. - disse a mamãe
- Aiai... e eu só precisava fazer um xixizinho...
- ...
- ...
- Hahahaha
- Hahahaha

Depois de toda bagunça terminada e já dentro de um ônibus, de volta para casa, lhe veio um pensamento muito irrisório:
"Só poderia mesmo se chamar Rua do Hospício".

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Os animaizinhos subiram de dois em dois...




Para Suhelen Aragão, com todo meu afeto angelical


A data natalina parece ter mesmo sua mágica. As pessoas, contentes demais, distribuem presentes, repartem a felicidade com os familiares, doam roupa e comida para os desabrigados... Sobra até um tempinho para desejar feliz natal a todo mundo, inclusive os desafetos. Ah, o Natal! ... Somente uma comemoração tão sensível para aguçar o nosso paladar. Uhn! ... Parece que estou sendo falso ao falar que a data é verdadeiramente compreendida e representada, mas o garotinho percebeu muitíssimo bem que o problema não se encontrava na festa de aniversário do menino Jesus.

- O problema está nas pessoas, isso sim - dizia ele, inconformado - Mas o que se passa, afinal?

A falsidade sempre anda solta no final de ano, e por isso o conhecido discurso do Desejamos a todos um feliz Natal e um próspero ano novo! haverá de reaparecer sempre e sempre (não amém). É quase como se a esmagadora parcela da sociedade acreditasse de verdade nisso: que o simples virar de um dia 31 de Dezembro para 1 de Janeiro de um ano qualquer é capaz de modificar tudo na vida, sem que seja necessário um esforço sequer.
Então, durante a última semana pré-natalina, a sua mamãe e ele foram ao centro da capital comprar os presentes da festa dos amigos secretos. Não havia nenhuma graça, pois a cidade se encontrava no mesmo lugar de antes, cheirando à água fétida e fumaça, com as pessoas de sempre caminhando de um canto para o outro em espaços apertados. Para o garoto, era uma visão do inferno. Quente e amargo inferno.
Em cada loja que passavam era possível ver uma árvore plástica de natal rodeada por adereços, músicas saindo de harpinhas eletrônicas em gravações muito antigas, vendedoras atraentes caracterizadas de ajudantes de Papai Noel e vários cartazes com promoções imperdíveis e magníficas parcelas que poderiam ser pagas apenas após o Carnaval. Andaram aproximadamente duzentos metros, trezentos metros, um quilômetro... Nada o garoto podia fazer... se não esperar e esperar, cansado, a próxima escolha da sua mamãezinha. "Um pano de prato ou um porta-copos?", "Boneco ou carrinho?", "Sapatos escuros ou claros?”: eis as questões.
Tudo lhe parecia irremediável, até que, como se tivesse pousado para fazer um rápido pit-stop' durante a entrega de presentes, apareceu bem no meio da Rua da Imperatriz um enorme trenó, trazendo nele um bom velhinho simpático que logo saiu conquistando toda a criançada.

- Venham, venham! Ho ho ho!

Uma multidão logo se fez em volta do carro vermelho. O papai noel número 2.669 ou 4.890 (e quem sabe quantos são afinal) bradou, bonachão, no microfone, mais uma vez: - Venham, venham! Ho ho ho!

O garoto, tranqüilo e ardiloso, resolveu investir seriamente em seu propósito demoníaco de aprontar travessuras com o velho. Sorrisos safados e mãos que ele alisava satanicamente .“E os animaizinhos subiram de dois em dois...". Cada criança com mais uma ao lado, criteriosamente separadas por sexo, tamanho e idade.
Ele jamais acreditou no mito. Desde pequeno, sabia que se tratava de um senhor contratado para o serviço, e que não era sequer um substituto do original, pois o original também não existia. Enfim, depois de um dia nervoso, por que não rechear os bolsos com confeitos de segunda e ainda pedir um presente especial de Natal? Não custaria nada entrar naquela festa boboca de crianças tão crédulas, pensava ele.
Para cada moleque que se aproximava do velho, um grito do papai ou da mamãe pedindo para que o menino ou a menina sentasse no colo do bom velhinho, fizesse o pedido e sorrisse para a câmera fotográfica. "Ai, um primor!", disse uma mãe eufórica, enquanto sua filhinha de dez ou nove anos subia as escadas da arca de Noel, pronta para receber toda a luz mágica e pura do Natal.

- Uma bicicleta
- Uma bola...!
- Eu quero uma bonequinha, Papai Noel.

- AAAAAAHHHH!
- Oh! Não chore... Tome esses confeitos.
- Bligadu.

E cada menino e menina seguiram o trajeto perfeitamente até que o garoto malvado pudesse ter sua vez. Ao chegar a hora, um garoto mais novo que ele tomou posição e adiantou-se, correndo para os abraços do velho. Passou pouco mais que um minuto escolhendo o pedido, sorriu para a câmera, como deveria fazer, e deu um abraço muito gostoso no homem. Desceu correndo as escadas, e foi-se.
O garoto repensou o plano. Talvez porque lhe tivesse entrado no peito o germe que encanta cada criança que já ouviu falar em Papai Noel desde cedo; talvez por remorso, por querer machucar um homem que nem sequer era responsável por aquilo. Mas fez! Sentou-se direitinho em cima do velho, pediu logo todos os doces e saiu de fininho, dando a entender que havia sido por acidente o chute no saco do papai Noel. O bom velhinho gritou como nunca talvez tivesse gritado, proferiu todos os palavrões possíveis e inimagináveis, assustando os papais, as mamães e causando choro na criançada.

- Ummmmmmm... O Papai Noel é mau! - disse um menino de mais ou menos três anos, chorando - Feio!

Ninguém reparou o motivo, e o garoto desceu contente, pronto para aventurar-se de novo com as compras e a mamãe. Um sorriso sarcástico no canto da boca.

- Uhn, estranho. Você nunca acreditou nisso. Nunca gostou disso. Por que foi lá? - a mãe indagou.
- Ah, foi só uma vontadezinha. Eu queria ver como era um Papai Noel de perto. Eu continuo achando que ele é mau, muito mau...
- Ai, e é mesmo. Vamos embora daqui! Que coisa mais horrível todo aquele palavrão.

E, assim, o garoto risonho a seguiu naquele lindo dia.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Um anjo com os pés descalços




Para Juliana Carvalho


Assim que pôde fazer a curva da primeira esquina, o homem vestido todo de branco, com os pés descalços, entrou no ônibus, pagou sua passagem e sentou-se junto comigo na parte de trás da condução. O dia estava claro e aparentemente perfeito, com sombras por todos os cantos, céu limpo de nuvens, todo azul, e de temperatura agradável.
Algo no perfil daquele senhor alto, esguio, me fazia entender que ele era de bom nível cultural. Pareceu-me bastante simpático.
Logo que sentamos juntos, me ofereceu um confeito de mel e algumas páginas de leitura. O livro era carismático: O Castelo, de Kafka. O senhor alvo (como em minha memória foi registrado) estava no sétimo capítulo da obra inacabada. Pouco exigente, preferiu comentar que simpatizava com obras inacabadas por simplesmente oferecerem um desafio.

- Pouco me importa o final. Mas, confesso, é bem melhor quando nos permitem imaginar o que talvez houvesse sido. E você? - perguntou.
- Não tenho uma opinião formada. Mas eu gosto de livros, filmes, telas... onde eu possa me ver. Apenas. O sentimento é fundamental.

Arregalou os olhos e disse:
- Ah, sim. Quando não sentimos, estamos mortos. – ele me disse, com ar irônico.

Ele ria de uma maneira pouco agradável. Não por soar deselegante, nem tão pouco ser de um jeito descontrolado e pouco educado. Ria de um jeito irônico e dolorido.
O senhor alvo parou o riso abruptamente, contemplou uma paisagem qualquer fora do ônibus e tossiu de leve. Tentou esconder a dor. Assim, sem querer, ele me revelou o seu mal-estar, e eu pude fazer uma suposição sobre o que se passava dentro dele.

- O senhor fuma ou já fumou, não é? - discretamente, perguntei.
- Pode estar certo disso. Eu disse "pode" - ele me respondeu, ao passo que movia para o alto um dos seus longos dedos. Então tive uma ligeira sensação de que o senhor alvo tivesse participado, em outros tempos, das campanhas a favor da democracia.
Sem mais uma palavra, passamos os dois cerca de vinte minutos calados, inertes, até que o senhor alvo se levantasse, me pedisse licença e passasse por mim com toda aquela sua majestosa veste branca. Retirou o terno claro que trajava para que pudesse se livrar de um incômodo calor que já fazia naquelas horas, deixando à mostra uma palavra estampada na região mais alta de sua camiseta clara: “Eu”.
Desceu a escadaria e tomou um rumo incerto.

No segundo dia, por uma coincidência, talvez, o senhor alvo e eu sentamos novamente no mesmo banco, cada um em suas exatas posições: ele, voltado para a janela; eu, voltado para o interior do ônibus. Ele já não vestia as roupas da tarde anterior. Estava melhor, embora mantivesse o colorido branco: calças em mais puro linho, uma gravata sedosa e um terno de ótima qualidade.
Observou que eu estava ao seu lado e quis me cumprimentar:

- Olá!
- Olá, senhor. Tudo melhor? – eu disse.
- Tudo melhor, rapaz. Ganhei um bom prêmio jogando no bicho. É que sonhei com um veado - falou mais alto que de costume. E completou, rindo bastante: - Mas não venha me estranhando por causa disso, hein! Olha lá!
- Longe de mim, senhor. Longe de mim... – eu respondi, gostando ainda mais da piada - Ah, digo, longe de mim pensar assim a seu respeito.
- Uhum. Exatamente, rapaz. Exatamente. - respondeu, todo risonho e contente.

A nossa pequena conversa seguiu tão simplesmente, que ao olhar para uma parte dos passageiros à nossa frente era possível notar que, na verdade, conversávamos em três ou mais. Durante esse tempo, uma senhora baixinha e animada, um tipo muito peculiar e semelhante à minha falecida avó, soltava uma risada gostosa que soava como uma cuíca em desfile de escola de samba do Rio. Ela sempre voltava o rosto em nossa direção e continuava sorrindo.

O que me chamou a atenção foi que senhor alvo estava mesmo melhor do que no primeiro dia; ria sem dificuldade e tinha uma paz de espírito transparente no rosto. Perto de seu ponto de chegada, falou comigo sobre sua neta mais nova: uma mocinha que iria completar seus oito anos.

- Pensei sinceramente em dar um presente bem bonito para ela. Com oito anos, o que se pensa em ganhar, hoje em dia?
- Bem - pensei com bastante cuidado - para crianças, as coisas sempre giram em torno de brinquedos. De todos os tipos de presente, é o mais agradável.
- Ah...
- Mas acho mesmo que o senhor deveria dar algo para recordar sempre. Um retrato seu, quem sabe.

O senhor alvo silenciou, levantou-se, pediu licença, livrou-se do terno branco e saiu.
Virou-se para procurar uma saída entre a pequena multidão formada no lado de fora, próxima ao ponto de ônibus e mostrou para quem pudesse ver, na parte de baixo da camiseta clara, uma outra palavra escrita: “Apenas”.

No terceiro dia, antes que o senhor alvo sentasse ao meu lado, comecei a pensar na mensagem que ele desejava transmitir através de cada uma de suas camisas. “Eu, apenas”... Aquilo tudo fazia pouco sentido para mim, mesmo que as duas palavras se complementassem. Sendo assim, Eu e Apenas formaram, para mim, uma frase enigmática seguida por três intrigantes pontinhos que me causavam agonia e uma curiosidade quase insaciável.
Após breve silêncio meu, eis que o senhor alvo reaparece. Mas estávamos muito distantes, embora mutuamente visíveis. A condução achava-se repleta de passageiros, tantos que nem era possível trocar de assento com a moça bonita sentada ao lado do carismático senhor sem que, para isso, se perdesse o antigo lugar. Eu tinha algo a lhe dizer, principalmente sobre as mensagens.
O tempo continuou a correr e, em exatos vinte minutos, o cidadão colocou-se de pé, pediu licença, caminhou rumo à saída, retirou o seu terno religiosamente, e pôs-se para fora do ônibus; mas não sem antes exibir mais uma camiseta branca, onde estava estampada outra mensagem: “Sei”.
Quando perdi o homem de vista, somente segui o meu itinerário ainda pensando no que pudesse ser.

No dia seguinte, o senhor misterioso estava de novo sentado no fundo do ônibus, lendo mais um capítulo de O Castelo enquanto pensava, com ar de filósofo. Passei tempo suficiente com ele para perceber que sempre erguia rápido a sobrancelha direita quando desejava ponderar sobre um assunto.
Mantivemos distância, fingindo não ter ciência da presença de cada um. Eu, sentado também ao fundo, na ponta esquerda; ele, similar, porém à direita.
Vi uma pasta de cor branca posta próxima à perna esquerda do senhor alvo, que não se incomodava com o balançar do ônibus cheio: continuava a leitura, mudando delicadamente de página, sem se preocupar com coisa alguma.
Antes de se levantar, terminou de ler a última página do último capítulo de Kafka e, depois, cerrou o livro. Pediu licença à pessoa que estava ao seu lado e sorriu balançando a cabeça, em sinal de não.
A pasta havia ficado. Antes, pude ver a sua camiseta com uma última palavra pintada. Enquanto o senhor alvo acenava para mim e confundia-se no meio da multidão, a última mensagem que consegui ler rapidamente foi: “Que”.

No horário entre o meio-dia e duas da tarde do dia seguinte, não tive notícias daquele senhor. Por aproximadamente duas semanas seguidas, estava completamente desaparecido. Mesmo sabendo que poderia abrir a pasta e ver o que lá estava, tive dúvidas sobre a decisão mais apropriada a tomar. Porém, já estava totalmente fora de questão manter minha conduta e esquecer a pasta. Resolvi abrir.
Dentro, uma carta:

“Caro rapaz,

Nesses poucos dias que convivemos juntos, você foi o meu pequeno e sincero alívio para o mal que me persegue desde o começo dos meus dias.
A vida é um tanto vazia quando não se têm propósitos, é verdade. Mas a pior verdade é quando não se fez nada por si além de noites e noites mal dormidas e boemia avassaladora. Encher o organismo de uma bebida barata e ardente parece retirar o vazio que se põe dentro de nós... Mas é uma absurda mentira: a única coisa que o álcool me fez foi proporcionar mais agonia de existir.
Não se pode culpar uma garrafa de cana pelos erros cometidos, próprios ou alheios, mas se pode culpar a si mesmo pela tragédia da vida, pensar a respeito de tudo até definhar e morrer... Ou compreender que o sentido de tudo é não ser e, simultaneamente, ser, com todos os gostos que se há de saborear nesse nosso trajeto.
Eu provei do amargo, com todos os bofetes que tomei na cara; provei do doce, nos dias acalorados, quando me deram uns poucos sonhos com que pudesse me aquecer. Provei do sal de suor e lágrimas. E para que eu pudesse sobreviver, comi e bebi de um pouco de tudo que sai ou entra em um corpo humano. Essa minha experiência de vida se resumiu a muitas drogas, delírios e cuspe.
Agora que te escrevo, sinto-me despreparado para cometer o “deslize fatal” e fico pensando “Como pode ser isso? : assistir a uma pessoa como outra qualquer em total necessidade e não sentir nenhum pingo de solidariedade... e passar bem longe, só para não ver. Isso só me lembra a hipocrisia do mundo, pois foram poucas as mãos a mim estendidas, e praticamente inúmeros os dedos que me apontaram na cara.
Mas acho que o desastre que eu e todos os meus amigos passamos nas ruas foi a maior infelicidade de todas. Chagas por todos os lados, calor insuportável... Quando se tinha sede, arranjava-se fácil um copo muito cheio de cachaça; mas, raramente, água limpa para saciar a sede. A educação que me deram veio das ruas, veio de todo resto de papéis e jornais espalhados nas praças. Eu lia de tudo, desde um panfleto de vendas até os restos do “jornal latino-americano mais antigo em circulação”. A fome que meus amigos e eu passávamos era bastante incômoda, mas tínhamos ainda força para dividir os restos. Sim, é preciso bastante força para dividir o pouco que se tem.
Aproveitei o meu conhecimento em escrita para pedir ajuda aos “órgãos”: não tive resposta. Somente pessoas com sincera bondade nos fizeram algo de melhor. E não falo absolutamente de alimentos ou roupas, mas também de afeto e um pouco de atenção respeitosa.
Ouço um monte de pessoas dizerem que apenas comida não soluciona; como também ouço que apenas palavras não curam um desalento assim. Nós que moramos em “lugar nenhum” esperamos os dois, e é preciso que se dê pelo menos um bocado de cidadania a quem nada tem. O nosso desejo inclui felicidade, realização... sonhos. Poder curtir a maravilha de uma loja de livros, lamber um bom sorvete em dia quente, assistir a uma bela partida de futebol, entrar numa doceria e “comprar” um delicioso chocolate, ter a sorte de jogar e faturar um bingo! Fazer coisas normais, sem nenhum tipo de suspeita e discriminação. Obter espaço...
”Respirar um pouco” não é vadiagem, é só o que uma pessoa como eu também deseja na vida.
Minha família é de rua: filhos e netos. Perdi a minha carinhosa Lígia, há três anos ou quatro.
Estou grato pelas roupas que até hoje me deram, pelo pão que comigo partiram e pelas palavras de mansidão que me fizeram não desesperar.
Meu caro rapaz, você me lembra muito o meu melhor amigo da infância. Portanto, foi ótimo estar com você naqueles dias, no ônibus. Resolvi ter meus últimos dias desfrutando um pouco da dignidade que me foi roubada. Por isso troquei meus últimos centavos de esmola por uma barba bem feita, um terno branco quase novinho. Apenas não pude arranjar os sapatos. Fiquei descalço.
Achei na rua o tal livro do Kafka: foi maravilhoso lê-lo. Ao término, fiquei com a impressão de que havia também alguma coisa “inacabada” feita para mim, numa convicção de que a minha história ainda teria uma parte seguinte, ainda por fazer.
Recebi camisetas que, outrora, serviram para uma apresentação de colégio. Meu singelo saber me fez pensar que se tratava de uma frase de Pitágoras...
Não tenho mais tinta para continuar a te escrever, mas devo dizer, aproveitando o momento, somente mais uma coisa: “Eu apenas sei que...” foi agradável ter te conhecido. Muito Obrigado.



Dois dias depois, fiquei sabendo exatamente onde o senhor alvo morava. Entreguei à sua neta mais nova aquela pasta branca e pus fogo na carta original, como um sinal de pesar pelo falecimento do homem.
Seu nome era Romeu, e “Eu apenas sei que” ele agora significa uma outra parte de mim...

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Recife










Várzea




segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A história mais simples do mundo





Para a Senhorita Magali (meu amor)

Nasceu, chorou, gritou, respirou, silenciou, bebeu, comeu, borrou. Dormiu, despertou. Engatinhou, berrou... lambeu, sujou, pegou, soltou. Dormiu, sonhou. Chorou, chorou... chorou. Andou, falou, cresceu.

Comemoraram.

Brincou, caiu, brigou, perdoou, desculpou e envergonhou-se. Sorriu, sorriu, sorriu. Correu, pulou, chutou. "Gol!".
Estudou, aprendeu, reprovou... Passou.
Beijou, se apaixonou, suspirou.

Odiou. Esqueceu, lembrou. Mudou, escutou, viu, gostou: escreveu, rasgou.

Irou-se, calou-se, frustrou-se.

Reconheceu. Compreendeu. Confessou, declarou, ouviu... e se entristeceu. Ligou, desistiu. Esperou... Recomeçou.
Arrumou, insistiu, conseguiu, prosperou, deu, recebeu e ganhou.

Abraçou, cultivou, cantou, juntou-se e se emocionou.

Amou.

Agradeceu, congratulou. Viajou.

Retornou. Continuou.

Morreu.

Lembraram. Sorriram, choraram... de contentamento.

domingo, 9 de novembro de 2008

Olha o arlequim!



"Entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato:
Seu Rei mandou dizer que contasse mais quatro!
Entrou por uma perna de pato, saiu por uma perna de pinto:
Seu Rei mandou dizer que contasse mais cinco!
"

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

O filho que eu quero ter




É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer.

Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr.
E assim chorando acalentar
O filho que eu quero ter.

Dorme meu pequenininho,
Dorme que a noite já vem.
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar,
Quando eu chegar lá de onde vim.

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim.
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.

Dorme menino levado,
Dorme que a vida já vem.
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu.

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz e me embalar
Num acalanto de adeus...

Dorme meu pai, sem cuidado.
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter...

(Vinicius de Moraes/Toquinho)

Beijos...


são beijos: não se consegue explicá-los.
Mas é óóóótimo entendê-los.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

{6}

Minha mãe e eu principiamos a falar sobre acontecimentos do dia, enquanto cada um permanecia ocupado com suas respectivas tarefas domésticas.
Então, me veio uma vontade: - Vou ligar a televisão.

Instantes depois:

- Aí sim! Essa televisão tem uma diferença enorme. A de lá (casa do meu tio) ficou com a imagem ruim. Nem dá pra ver as cenas escuras do filme...
- O que tá passando aí? - minha mãe pergunta.
- Uhn... nada demais. Um filme bem clichê sobre guerras, essas coisas. Parece que o nome é "Segundo em comando"... algo assim. É... o tio me falou.
- Ah, eu não gosto desses negócios de guerra. Ainda mais com esse tal de... "Macaulay Culkin".
- Ahauahuahua. Ai!
- Haha. Né ele não, é?!
- Aiai, mãe, só a senhora pra me fazer rir tanto assim. Confundir Van Damme com Macaulay Culkin... Haha
- Ahauhauauha. Ah! E eu sei lá!

sábado, 1 de novembro de 2008

"Leitinho"



"com você o meu chão é o espaço"
eu caminho por entre estrelas e brinco de me esconder atrás da lua
só pra você me achar logo depois do sol e me encher de calor
(-:

sábado, 25 de outubro de 2008

"Amor...




eu tô feliz só de lembrar que a gente se conhece
só de lembrar que eu amo você como você também me ama
só de pensar que está ótimo, esplêndido assim
e só de saber que a gente ainda vai se ter por muito muito muuuuuito tempo."
:-}
"Tenho um sentimento encantador guardado comigo, na mente e no coração: é sinônimo de Magali"

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

De tanto pensar em você...


*-*



Engraçado... como você me aparece em toda parte. ^^

"Olha o passarinho! ..."



click!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

"Coraçãozinho"



"O amor é como uma bolinha de festa... e eu tô segurando bastante contra meu peito pra não soltar.
Só se eu couber dentro dele com mais alguém, aí eu saio voando... com você
"

"Vejo flores em você"



"Entre diversas coisas que me fazem pensar tão pra cima assim incluo você.
Eu acredito mesmo no amor, em suas várias formas. Acredito na paz... na compaixão... na gentileza, no respeito... mas disso tudo que eu já te disse aqui ou em outra ocasião, foi do que você me fez sentir. Aí eu acho que fica mais forte na gente pela junção do acreditar e sentir: não dá pra sentir amor sem acreditar em amor.
Amor é como um ato de fé: abstrato, porém "concreto"... real.
Eu acredito nisso, que possa existir... e acredito no que sinto por você. Amo você... tanto pelo que você é e pelo bem que me faz. E pelo bem que eu te desejo.
"

Passo-a-passo



"Uma boa risada é: rir sem se conter, durante alguns intermináveis segundos... e depois respirar fundo, soltando um ar agradável pelas narinas, enquanto se diz ai... alegremente. =)"

terça-feira, 21 de outubro de 2008

...



"É como se sentimentos bons tivessem um aroma delicado. A gente sente o cheirinho... e segue."

haha!



"e brincando... a gente acabou falando sério."

A mulher a quem se espera amar





"...Sempre entendi assim: ela te ama também, te faz rir e cuida de você. Além de tudo, é linda, em qualquer sentido que a palavra possa oferecer ou, principalmente, o mais emotivo."

sábado, 18 de outubro de 2008

"Letras floridas"



"Amigo é pra ficar, se chegar, se achegar,
se abraçar, se beijar, se louvar, bendizer
Amigo a gente acolhe, recolhe e agasalha
e oferece lugar pra dormir e comer
Amigo que é amigo não puxa tapete
oferece pra gente o melhor que tem e o que nem tem
quando não tem, finge que tem,
faz o que pode e o seu coração reparte que nem pão."

Trecho de
amigo é casa.

Música e letra: Capiba/Hermínio Bello de Carvalho

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

oba! (*)



"Nós teremos um ótimo dia."

*acho oba uma palavrinha mais acessa.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

"Mademoiselle..."



"O Tapete Mágico espera por você, então não se atrase.
Eu quero te mostrar diferentes emoções."

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

uôôôu!



"Toda sua vida
Você só esperava por este momento para ser livre
.
.
.
Voe!"

domingo, 12 de outubro de 2008

Ser criança:



Perca um pouco da seriedade e invista nisso. ;)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Magali

Verdade que esquenta o coração, como uma espécie nova e delicada de flor que ao soltar suas pétalas pelo jardim inteiro continua mais e mais encantadora, deixando um aroma suaaaaaaave no ar.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Cat Power

Opte pelo poster favorito ou mais bonitinho:






quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Deus"




Para Natália Volonakis
(lily)


Na última vez que Deus e eu nos encontramos, ele me disse que eu havia fraturado o dedo médio da mão direita.
E disse Deus: Uhuuuum. Temos um probleminha aqui, garoto.
Deus e eu tivemos a chance de uma única, pequena e rápida conversa. Acho mesmo que Deus deve ter terminado a primeira parte de sua carreira de médico.
Deus não tem cabelos brancos, barba bem feita ou a estatura de um herói greco-romano. Deus é pequeno, prefere azul a preto e gosta de adormecer numa boa rede. Deus é gentil. Ah, sim, ele é gentil, como sempre me disseram e como eu já acreditava que fosse. Deus sabe que sozinho não faria muito, e também entende que muitos precisam de seu cuidado. Às vezes é como se ele fosse o único capaz de ajudar. "O forte e inabalável".
Deus ama com enorme devoção sua mulher e seu único filho, mas ainda se sente como o mais solitário de nós. Deus não consegue se perdoar completamente pelos equívocos que cometeu, e, ao contrário do que diversas pessoas contam e mentem, ele se arrepende de várias atitudes que tomou ao longo de sua simples vida.
Deus gostaria de controlar o tempo e, conseqüentemente, também a morte. Também sonha em poder viajar para um lugar distante quando tiver suas próximas férias... de preferência, um paraíso americano. Deus não gosta de acordar com a luz do sol e tem o estranho costume de ouvir sinfonias de Beethoven quando deseja pensar e pensar e pensar. Deus tem medo de ficar só e de terminar só (e nisso somos como unha e carne).
Deus fez sexo com sua vizinha, na semana passada... por imaginação. Deus gosta de cuidar de crianças. Deus ama e respeita todos os bons velhinhos (e os malvados também). Deus adora visitar de surpresa seus pais, abraçar com ternura sua mãe Maria e seu pai Filipe. Deus não sabe como será o seu ou o meu amanhã, mas gostaria de prever o hoje e entender satisfatoriamente o que houve até ontem. Deus gostaria de estar em todos os lugares e fazer todas as coisas ao mesmo tempo.
Deus não está absolutamente convencido de que merece algo na vida, porque não acredita em merecimento e nem sequer entende o significado de pessoa especial. Deus acha que podemos contribuir da melhor maneira possível, e assim ele tenta... mas acha que caminha para uma espécie de desgraça definitiva e inevitável. Deus odeia o sinal vermelho, não suporta o cheiro de fumaça de caminhão e gosta do sabor do sorvete de manga; é observador e tranqüilo, como um tornado silencioso, e sua estação preferida é o Outono.
Somos semelhantes a Deus, mas ele não se parece com nenhum de nós. Deus tem trinta e seis anos de idade... e ele só mora na avenida mais próxima do quarteirão do hospital público da cidade.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aos queridos leitores (3)

Eu já conversei um pouco sobre meu livro com alguns amigos de plantão que praticamente vejo e falo todos os dias. Uma dessas pessoas de bem me fez ter uma idéia durante um diálogo via messenger (Mia), mas ela nem supõe o efeito definitivo que isso vai ter: resolvi que vou fazer Causa e efeito somente com colagens. Isso mesmo: cada capítulo será uma montanha de recortes de palavras tiradas de revistas ou jornais (prefiro revistas), que logo depois vou tratar de juntar para ver se formo frases, parágrafos, capítulos... e assim por diante, até concluir a história. Vai ser caótico até dizer "chega!"
Vai ser difícil? Acho que não. Mas eu quero muito jogar umas coisinhas anônimas assim num mural que tem lá no Centro de Filosofia... só pra ver no que dá. (Calma: não farei nada que vá infringir a lei ou lesar o direito de algum cidadão. :D)
Até!

"Sensação de pura refrescância!"



Lemon Ice Tea: "ahhhh!" :-)

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

:)

Enfant gâté =D diz:
ficou massa
silas. diz:
=D
Enfant gâté =D diz:
mas tem umas figuras solitárias.
silas. diz:
essa colagem eu coloquei na capa do meu caderno. aí algumas figuras ficaram soltas mesmo, mas significa você, eu... todos.
Enfant gâté =D diz:
tipo, cem anos de solidão rsrs
silas. diz:
haha
silas. diz:
ah.
silas. diz:
saquei.
silas. diz:
;-]
Enfant gâté =D diz:
mas tem mais.
silas. diz:
outro solitário?
Enfant gâté =D diz:
e engraçado.
Enfant gâté =D diz:
q tem umas figuras q msm sozinhas parecem felizes.
silas. diz:
o cara do rolo de papel? rs
silas. diz:
foi estratégico.
Enfant gâté =D diz:
kkk
Enfant gâté =D diz:
liga naum.
silas. diz:
haha
Enfant gâté =D diz:
eh q às vezes eu vejo coisas demais.
silas. diz:
uhum.
silas. diz:
mas eu espero que veja. ;-]
silas. diz:
por exemplo, o Pelé: muita gente se pergunta mais do número 7.
silas. diz:
"quem é?"
silas. diz:
é como um bom amigo que a gente pouco vê ou fala, mas que a gente ama e respeita bastante.
silas. diz:
eu me sinto assim com todos vocês.
Enfant gâté =D diz:
:D

terça-feira, 23 de setembro de 2008

"Sukaaaaa, pra você!" \o/












No meu caderno.


segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Atenção:


As informações contidas neste site têm caráter informativo e não devem ser utilizadas para realizar auto-diagnóstico, auto-tratamento ou auto-medicação. Em caso de dúvidas, consulte o seu médico.

domingo, 21 de setembro de 2008

"... Mas não sai." (*)


Só porque eu não digo nada
Não quer dizer que eu não gosto de você
Eu abro minha boca e tento e tento
Mas as palavras não vêm.

Sem 40 onças de habilidades sociais
Eu sou apenas mais um num instante da humanidade
Sou apenas um grande peixe-boi
Um enorme peixe-boi.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde assistindo desenho.

Duck Tales, Shirt Tails, Talespin, Sailor Moon, GI Joe, Robotech, Ron Jeremy, Schmoo.

Eu quero ver desenho com você
Josie e as Gatinhas e Scooby Doo
Eu quero que você veja desenhos comigo
He-man, Voltron e Hong-Kong-Fui.

Eu tentei te convidar
Mas as palavras não vieram
Eu coloquei meu capuz e fui embora
Isso não significa que eu não gosto de você.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde e eu talvez te beijar.

Só porque eu não digo nada
Não quer dizer que eu não gosto de você
Eu abro minha boca e tento e tento.

E além disso você provavelmente está de mãos dadas
Com algum garoto magrinho e lindo que gosta de
falar de bandas
E tudo o que eu quero fazer é andar de bicicleta com você
E a gente ficar acordado até tarde assistindo desenho.

Sou apenas mais um dos Thundercats.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Aos queridos leitores (2)

Estou prestes a concluir a minha fantasia mais pronlongada: Causa e efeito. Antes, eu havia pensado numa pequena publicação com direito a desenhos muito bem produzidos e (quem me dera!) uma revista. O nome dessa obra seria Neolíticos. Neolíticos propõe uma discussão bem-humorada sobre as relações humanas. Coisas simplórias que buscavam decifrar os diversos casos entre homens e mulheres, baseado no modelo artístico (ou gráfico) da época da Pré-história. Assim, tentei criar alguma comparação absurda entre os hominídeos do período neolítico e os sapiens de nossa era, de modo que pudesse responder minha curiosidade, sem que para tanto fosse necessário um estudo científico e sério. Neolíticos era quase um Flintstones "bem" acabado, e com mais infidelidade ainda aos acontecimentos históricos. O que eu realmente quis foi desenhar tão bem pelo menos uma vez. Com a constatação de que Neolíticos não teria sua vez, curti o meu chamado "hiatus", logo em seguida retomando o curso da minha produção escrita na elaboração de rápidos contos e do meu blog definitivo: Lápis. Causa e efeito não é um resumo, mas sim um conteúdo prolongado e pessoal , como uma fácil coleção de memórias, porém sem datas ou lugares certos nem sequer precisão de detalhes e informação.
Para cada efeito existe uma causa; de modo bastante parecido, dizem existir uma reação para cada ação.
O que explica cada frase escrita nesta leitura particular é somente o nada: nada de complexidades, nada de assuntos profundos ou aparências. Não irei me render a discursos intermináveis a respeito do livro, porque, como sedento leitor que costumo ser, sei que apresentações não costumam resumir muito bem e nem ao menos explicam a alma de uma concepção literária. É mais importante ler do que apresentar. Apenas isso.

Até.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Adaptado

... Tudo isso me lembrou uma comédia juvenil: os caras passavam pela Holanda e inventavam de entrar numa doceria (algo do tipo) pra experimentar o bolo de haxixe. Um garçon traz bolo e eles devoram tudo. Começam a rir sem parar e se perguntam "por que eu tô sentindo tanto calor? eu não consigo parar de rir!".
Um cara se levanta e começa a dizer: - O que você colocou nesse bolo, cara?! Eu tô doidão! HAHA.
O garçon estranha, pergunta se está tudo bem e responde:
- Nós não servimos esse tipo de bolo. Aqui é um restaurante comum.

Aí eu pensei:
- Cara, pois é... tem gente que viaja sozinha mesmo. Nem precisa de ajuda.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

1° dia


Repetidas vezes, a cada quatro jornadas, girando dentro do espaço retangular de um calendário... segundas, terças, quartas... sextas-feiras santas, profanas... dias de sábado, domingo. Poderia ter sido, pelo menos uma vez, diferente, mas as coisas se movem para uma possibilidade igual. Os dias de domingo nunca foram meus preferidos. Odiava todo aquele calor que um dia de domingo parece exalar. Isso me deixava tonto. Dias perdidos, dias em que se vê o sangue jorrar, enquanto se espera a descontinuidade de seu fluxo. Um chumaço de algodão queimado entre as narinas, a respiração sem força... olhos e boca bem arregalados... a cabeça inclinada para o alto, toques leves das pontas dos pés no chão frio, traçando o caminho de chegada e saída... o som que se sente como o do curso de uma correnteza e a sensação viva de um líquido viscoso, rubro e metálico a invadir toda a sua língua.
As coisas acontecendo num espaço curto e monótono de tempo, enquanto você tenta estancar a morte que caminha por entre os dedos, pingando gotas da metade da outra metade de sua vida. As dores fortes que tomam todo o seu cérebro, a preencher os lados, a fronte, os cantos inferiores dos olhos... ferindo-lhe a boca seca com calor infernal.
"Malditos! Malditos, todos vocês!".
Completamente tomado de ânimo, cheiro e sabor de metal. Quando o medo escapava de mim, eu me erguia sozinho e jogava fora os pedacinhos de algodão, olhava bem a minha imagem frente ao espelho e depois seguia para qualquer lugar. Às vezes era melhor sentar em um pequeno tijolo e conversar sozinho; às vezes era bom correr um pouco.
"Nada de fumaça, muito menos alimentos gelados. Comida sem qualquer aditivo... corante, emulsificante... extasiante... alucinante.
"Fique longe do frio e se distancie do calor. Use panos mornos".
Sobrevivência no mini-universo da incompleta realização.
Nada de hoje é diferente do que foi, porque simplesmente sempre foi. Não existiram etapas, muito menos fases. Na vida, tudo foi algo único. As pessoas se aproximaram, se afastaram, foi criada uma ligação vital... depois houve dependência e também um pouco de tristeza. Sem que pudesse perceber como aconteceu, eu estava novamente numa outra roda... cultivando afeto, trocando olhares, canalizando o animado uso do meu tempo. O meu único problema, imagino, é que eu estava preparado antes de me dizerem adeus. As pessoas... não as odeio, mas acredito que não as amo. "Amor é uma palavra muito forte" ... e pode ser que o mesmo amor que se sente te distancie daquilo que você espera aproximar. As pessoas que tanto amamos, de uma maneira pouco compreensível, tenderão a se mostrar magoadas, receosas... talvez por já terem vivido o mesmo que nós. Mas a realidade se transforma completamente (espera-se que sim).
"Por que você foi me amar? "Por favor... esqueça".
Não se consegue parar de pensar em tolices. E pensamentos ruins não descansam.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Aos queridos leitores

Algumas coisas foram apagadas para que dessem espaço a outras. Nem tudo que escrevi e aqui foi colocado era parte de um acontecimento real, porque eu sempre espero que todos vocês, leitores, tenham um pouco de imaginação. Por favor, se por acaso tiveram a nítida sensação de que fosse assim, peço que me desculpem. Não faço isso por maldade. Talvez seja só uma técnica involuntária do meu processo criativo, ou eu realmente tenho lábia pra transformar um tanto de assuntos perdidos em uma coisa inteligente e lúcida.
Convencer as pessoas de que uma fantasia é "real" até onde se possa sugerir não é nada fácil. "Pontos pra mim". Porém, talvez seja mais difícil ainda convencê-las do contrário. As pessoas necessitam de um pouco de sonho, o tempo todo, daí uma dependência quase química de se acostumar a "voar alto".
Mas fantasias não têm asas, nem sequer voam.


Vez ou outra, eu continuarei publicando. O estoque de lembranças infantis acabou. Eu agora quero escrever mais, sem paradas para respirar ou pensar direito. É isso.

Obrigado pela gentileza e atenção. Nos encontraremos, em breve.



Notas: 1. A entrevista para o Papo Furado foi apagada, não porque não tivesse acontecido, mas porque houve uma escolha por colocar futuramente a entrevista definitiva, a que foi escolhida (esqueci de mencionar que foram 5 sessões). A postagem era fruto de uma gravação;
2. As outras postagens, mais precisamente as de música, foram apagadas porque, definitivamente, não pretendo perder meu repertório de curiosidades já guardados para a revista em que estou trabalhando nos últimos tempos. Assim, ficarão sempre neste espaço contos, observações diárias ou opiniões diversas a respeito de tudo, menos música. Quando houver a possibilidade de repassar o que escrevi sobre o tema música, deixarei uma postagem;
3. As outras coisas, as que se referiam a imagem... bem, eu repensei: não quero deixar isso aqui tão solto. Gosto de colocar imagens, mas aquelas todas, naquele número, tomavam bastante espaço e dificultavam, vez por outra, a leitura completa do Lápis. O que sobrou é meu mimo (Nemo e Filosofia).

.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Natural

Todos os olhares se voltavam para o chão, enquanto eu passava no corredor principal. O lugar sujo de branco, cinza e azul; uma mistura psicodélica de tons agressivos e angustiante temperatura quente. Naquele mundinho, pensar em respirar era sinônimo de morte. Homens e mulheres sem nenhuma disposição passeavam para todos os lados. Nos rostos, a junção de mil noites mal dormidas, angústia e ódio.
Cada personagem novo que por ali passava naquela hora da manhã segurava firme suas bolsas e livros de todos os tamanhos e formas, aparentando preocupação com seus assuntos particulares. Não era o momento oportuno para se dizer "bom-dia"; nenhum deles saberia responder. Por alguns instantes eu me preocupei em não estar ocupado com nada. Dei uma volta nos outros espaços do prédio, averigüei horários e compromissos... depois me sentei em qualquer cantinho e esperei a passagem do tempo. Avistei mais duas ou três pessoas desconhecidas que comigo compartilharam um profundo tédio. Logo depois, decidi levantar e sair de lá. Fiquei encostado na parede que dava para o segundo portão interno, com um dos meus joelhos dobrado e o rosto voltado para o céu. Eu podia ver quatro nuvens, e uma delas tinha o formato parecido com o de um cão. O restante estava muito difícil de identificar, então desisti.
Cerca de cinco minutos mais tarde, senti alguém se aproximar de mim. Era alguém que reparava muito bem a minha atividade estúpida. Pelo canto inferior dos olhos notei que estava a fazer tímidos sinais com as mãos. Custaria pouco de minha vontade para vê-la sorrindo, mas optei por fingir não ter algum interesse ou curiosidade em lhe falar. Eu senti que sua boca começava a se abrir para me dizer algo, enquanto se aproximava. Tinha uma aparência de contentamento, surpresa, timidez e receio.
-O que vai ser?- pensei -"Olá", "Oi", "Ei", "É..."?
O que veio a soar nos meus ouvidos não foi nenhum monossílabo da costumeira comunicação entre estranhos. Ela me disse duas palavras, em total sinal de afeto e gentileza:
-Como vai?
Pôs um dos braços por cima do meu ombro, esticou-se um pouco em cima de mim e me deu um beijinho no rosto. Depois, com os dentes, beliscou de leve minha orelha, de um modo que me causou arrepios. Ela me puxou a ponta da orelha como se não tivesse ninguém por perto, como se fossemos íntimos de longa data. Pude até mesmo sentir o calor de sua respiração ofegante e a sua língua me tocar enquanto me mordia silenciosamente. Permaneci imóvel, chocado, e continuei a observar as nuvens. Antes que eu tomasse coragem e lhe desse uma resposta, já a enxergava bem longe de mim, caminhando vagarosamente, olhando bem nos meus olhos em todo esse tempo, ao passo que se afastava cada vez mais. Mostrou-me outro sorriso zombeteiro, e terminou por dizer:
-Olha, aquela ali bem na ponta parece um cão... Não é?!
-Eu também acho - respondi feliz e tímido, em agradecimento.
Voltei os olhos para cima e, em seguida, de volta para o corredor. A garota já havia sumido.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Alguém disse (2)

Amor, então
também acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


Paulo Leminski

Nadando

Por incrível que pareça,
talvez o melhor estilo
para um poeta moderno
seja o estilo clássico, ou
nado de peito. Ele exige
certa contenção. Você
deliza n'água mansa-
mente, como se hesitasse.
Ao atingir a borda, é
impossível virar cam-
balhota, daí talvez ele
ser chamado clássico, ou
quem sabe é porque é o que serve
melhor para se observar
o que se passa ao redor,
isto é, fotografá-lo, ou
-evitando anacronismo,

e já que falamos de água-
espelhá-lo, visto que o
espelho é por excelência
a metáfora do clássico.
Nadar é como uma cobra:
um constante enrodilhar-se
em pensamento por vezes
nada sublimes (que belo
traseiro ali adiante, etc.);
daí, em vez de estilo clássico,
talvez fosse mais correto
falar-se em mescla de estilos.
Nadar: um poema longo
em redondilha maior
com andamento de prosa
em que é difícil manter
o mesmo ritmo sempre

(Poe não dizia que um poema
deve necessariamente
ser breve?). Começa-se a
arfar, os músculos pesam,
respira-se irregular-
mente, o nado, apesar de
clássico, agora assemelha-se
a um poema moderno
(ou a um aprendizado),
um poema que tivesse
uma piscina por tema,
e um nadador que insistisse,
já que escrever poesia
(principalmente hoje em dia)
é uma espécie de nada.
Nada. Nada. Nada. Nada.

(João Moura Jr.)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O simbolista esquecido.


Eu encontrei na estante de livros do quarto do meu primo o livro A Obra Poética de Edgard Mata sem a menor intenção. Estava somente dando uma olhada, como dizem, procurando algo diferente para ler, aí achei essa pérola escrita por uma professora da UFRJ, em 1978, e que, talvez, nunca tenha passado por uma reedição.

Realmente difícil, missão semelhante a de sacerdócio, achar o livro de Cilene Cunha de Souza. Ela sim teve espírito de monja para pesquisar, escrever e divulgar um pouco sobre Edgard da Matta Machado, um poeta tão esquecido que, nas palavras da autora, ainda aguarda uma publicação em livro de sua obra, fragmentariamente conservada na tradição oral e em efêmeros jornais de seu Estado.
Edgard nasceu em Minas Gerais, na cidade de Vila Rica (Ouro Preto), mas viveu até sua morte em Diamantina. Filho de um Conselheiro e descendente de duas famílias tradicionais, aos vinte e poucos anos integrou o Grupo Simbolista de Belo Horizonte e participou da fundação do primeiro jornal literário de lá, o Lotus. Trabalhou em jornais, a exemplo do Comercio de São Paulo, onde publicava crônicas diárias sob o pseudônimo de Mário Corvo; mas certa vez foi advertido a respeito de ser muito fúnebre e lembrar Edgar Poe, como disse o editor do jornal, Afonso Arinos.
Após 1903, Edgard caiu em desilusão com a vida e passou a vagar por ruas, becos e botecos, sempre atrás de uma bebida que às vezes recebia em troca de pequenos serviços ou algumas improvisações poéticas. Sobre esse lastimável momento de sua vida, dizem os familiares e os poucos que o conheceram ter sido motivada pelas mortes repentinas de seus pais ou uma desilusão amorosa que teve ainda na adolescência: "Tinha sempre nos lábios os versos de Antônio Nobre:

E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
Esforço inútil. Tudo é ilusão.
Quantos não cismam nisso mesmo a esta hora
Com uma taça, ou um punhal na mão!"

No mesmo ano de 1903 voltou à sua cidade e passou a residir com sua avó paterna. Em 1907, ele veio a falecer daquilo que popularmente se chama morrer de beber. Também por ser considerado o melhor gênio criativo do Grupo Simbolista do qual fazia parte, houve bastante pesar pela sua morte. Na lápide estão escritos, divididos em três partes, as informações básicas sobre sua vida e idade (Edgard da Matta Machado./Nascido em Ouro Preto, a 21-10-1878./Falecido em Diamantina, a 26-2-1907./Orae por elle), os poemas Estalactite e Ouvi-me, irmãos, ambos de sua autoria, e o poema Saudade, escrito por Maria Higina, que resume o lamento dos que o amavam.
Apesar de ter vivido seus últimos dias em dolorosa boêmia e ter definhado até quase não restar resquícios de suas faculdades mentais (sobre esta informação existem contradições), é bastante válido aos que pretendem conhecer um pouco mais da literatura brasileira, especialmente a fase do Simbolismo, uma mínima leitura das poesias e poemas desse autor mineiro; ainda mais quando se sabe que por ser extremamente raro esse contato com suas publicações (diversas queimadas estupidamente por sua tia que, acometida de insanidade, extingüiu a mair parte dos poemas - muitos ainda inéditos) e o fato de A Obra Poética de Cilene não ser tão acessível, deve-se, então, não esperar que o resgatem do esquecimento profundo.
Nossa gentil leitura talvez seja o mínimo que ainda se possa fazer.


Abaixo, os poemas que pude digitar e aqui publicar.
Façam bom uso, garotos!
;)


Memória I

São os meus versos de hoje uma elegia
A ti primeiro e derradeiro Amigo,
Fi-los pensando num luar antigo
Que evoca os sonhos das visões de um dia.

5. Peço por ti a Quem os astros guia
Preces e luares para o teu jazigo
E para aquela que numa agonia
Seguiu-te perto, se viveu contigo.

Teu pobre filho que deixaste exposto
10. No mundo - a roda da Desgraça, o espaço
Contempla, erguido, o lacrimoso rosto -

Compõe-te uns versos, mas, se os leva o vento,
Melhor fizera se galgasse o Paço,
Desfiando agora seu rosário bento.

Memória II


Ajoelhado, rezando a Oração Funerária,
Eu senti nesse dia a emoção do Deserto.
O olhar pairava além da região solitária
Vago como o de quem sonha embora desperto.

5. E nesse dia feral foge ainda tão perto
E com ele fugiu toda paz visionária...
Ah! visões tenho-as eu, mas em túmulo aberto
E os crepúsculos cristãos duma bênção mortuária.

Tudo mais se apagou. Fui viver num mosteiro.
10. E podereis talvez ver o Prior do Desgosto,
Mas não é nem Templário ou Monge Cavaleiro.

Procurai-o. Ele está sempre a rezar absorto
Na cela vesperal duma tarde de Agosto
A contemplar no Azul a aparição de um Morto.

Piedade Astral

Alma de lírios, sofredora e casta,
De angústias velhas que um luar consola!
Alma dorida que na terra esmola
Amplos repousos que o Nirvana arrasta!

5. Ah! tanta Dor indefinida basta
À tua estranha provação! Desola
Essa lamúria que em ti se evola,
Alma de lírios, sofredora e casta

Segue por essa solidão sem termo
10. Da esfera curva, procurando a Lua,
A sonolenta visionária do ermo...

Pois só a mansa Caridade etérea
Dos astros pode consolar a tua
Inconsolada e trágica Miséria!

Soneto

Olhos fitos no azul de tardes maceradas,
Quando o Sol vai morrendo e vem nascendo a Lua!
Olhos meigos, oceano onde manso flutua
O bergantim da Dor de Almas resignadas! ...

5. Sondando o teu olhar, vejo tua Alma nua,
Tão pura, mas lembrando estrelas apagadas
E um tom longínquo de longínquas alvoradas
E a sombra vesperal de uma lembrança tua...

Deviam ter assim os olhos como círios,
10. Voltados para o céu, de cima das fogueiras,
As Santas, no momento augusto dos martírios! ...

São olhos onde habita a Paz do cemitério,
Desiludidos como a chama das tocheiras. . .
Erram neles agora as sombras do Mistério! ...

Soneto

Tu, que eras para mim a aparição de opala,
A estrela vesperal de um crepúsculo imoto,
Sem as cores da vida ou harmonias de fala,
Partiste e hoje só vens como um sonho remoto.

5. Levaram-me, sem só, pelas sombras de vala,
As mãos cruzadas sobre o peito - o extremo voto -
E a pupila, que tinha algum sonho a nublá-la,
Guardava o áureo fulgor do teu olhar devoto...

Morreste; mas na Morte os teus triunfos eternos:
10. A tua carne volta imaculada e pura
Em vagas sugestões de outonos e de invernos! ...

És bela eternamente. E eu sinto as Primaveras
Quando numa visão o teu olhar fulgura
Longinquamente triste, a desvendar Quimeras...

Mors Amoris

Dias tristes virão, tristes e sonolentos,
Sepultar nosso amor num tédio de cegonhas...
E tudo que hoje vês, tudo que amas e sonhas
Há de morrer no "spleen" desses dias nevoentos.

5. Os lábios que hoje beijo hão de dizer lamentos,
Muito embora ao desgosto o antigo amor oponhas.
Hão de soar na tua alma harmonias tristonhas
E os salmos de saudade e horas de desalentos.

O teu olhar de luar embebido nos Poentes
10. Terá, na Ave-Maria, o empalecido lume
Dos círios a alcançar a agonia dos doentes.

Partindo, levarás toda a lembrança tua!
Que ficarei também sem saudade ou queixume,
Como o Sol que abandona sua noiva - a Lua...

Assistência Póstuma

Quando ao meu triste olhar as sepulcrais Vidências
Mostrarem-se, rasgando os ninhos do Mistério,
Meu corpo dormirá num velho cemitério,
Abandonado ao luar das outonais plangências.

5. E ali, morrendo um Sol, em pálidas diluências,
Nesse abandono sacro e vesperal e etéreo,
Há de velar-me a tumba algum olhar sidéreo,
Um Astro de Piedade e de imortais Essências.

E este Astro foi meu guia em pávidos desertos
10. E teve sobre mim, constantemente abertos,
Os paliuns siderais das proteções terrenas.

E quem me aconchegou nas solidões do Inverno
A cova há de vestir, num grande amor paterno,
Da estranha maciez de arminhos e de penas.

Soneto

Caiam Paliuns de paz e proteções terrenas
Sobre os que vão na terra entre ilusão e a mágoa,
Mãos para os céus voltando e os olhos rasos d'água
Numa alucinação de agruras e de penas.

5. Flutuam no passado, em soluções serenas,
Cipestres a carpir, ondas batendo a frágua. . .
E lá para o Futuro, onde a ilusão deságua,
Descerra pelo Azul a pálida Açucena.

Tudo tombou assim, como castelos vagos. . .
10. E o que virá depois desses tristonhos dias
Serão a mesma dor e o mesmo azul aziago?

Horas que não vêm mais, já sepultadas longe. . .
E venha agora a Lua, entre mortalhas frias,
Iluminar na estrada o solitário Monge.

Enfermo

Enfermo. . . e os olhos pálidos descerra
Tão fatigados e tão cismadores,
Que uma visão de sonolências erra
A pressagiar misteriosas dores.

5. As faces têm esbatidas cores
Do luar de Agosto num país de serra. . .
Há no sorriso que um lamento encerra
Um poema ignoto de saudade e amores.

Tudo é sereno neste estranho enfermo
10. E no fulgor do seu olhar tristonho
Sentem-se as velhas nostalgias do Ermo.

Fala. . . e a palavra é tão solene e mansa
Que penso que anda o derradeiro Sonho
A povoar-lhe as solidões da Esp'rança.

Êxtase

Das solidões do Azul iluminadas
Vinham descendo procissões piedosas
De anjos e sonhos e visões aladas
Com grinaldas de estrelas luminosas.

5. Desciam por quiméricas estradas,
Tapetadas de lírios e de rosas,
Como Santas e Monjas lacrimosas
Do mosteiro de plagas consteladas.

Flutuavam no espaço sonhos calmos,
10. Harmonias e cânticos e salmos
De invisíveis espíritos etéreos...

Nessa hora, ao meu absorto olhar tranqüilo,
Desvendou-se o sublime Peristilo
Do Castelo brumoso do Mistério...

Esmola

Senhora! pelos áridos caminhos,
Vós já vistes, decerto, mendigando
Um velho maltrapilho, soluçando,
- Filho da raça espúria dos mesquinhos.

5. E vosso olhar, que é feito só d'arminhos,
Perde os fulgores rutilantes, quando
Se vos depara um mísero chorando:
E abre-se então a urna dos carinhos.

E neste hora, nas pálpebras divinas,
10. Andam lágrimas puras, cristalinas,
Como um diamante raro do Oriente...

Eu vos peço, também, a minha esmola!
Lançai-ma aqui no coração - sacola:
- Um raio só do vosso olhar ardente!

Outonal

Por entre as quaresmais micerações do outono
Minha Alma peregrina anda perdida agora,
Pois se ela tem a mesma paz, o mesmo sono
E a mágoa vesperal que pelos serros chora...

5. As folhas vão tombando, assim como quimeras,
Das árvores da Crença em nosso coração:
Percebe-ce a saudade astral das primaveras
A florescer roxeada em toda Solidão.

O sonho foragido, o bergantim dourado
10. Lá vai cortando o oceano intérmino das mágoas...
- Olha a tristeza de um castelo abandonado
E a mansa quietação simbólica das águas!

Já não mais brilha o luar sonâmbulo nos ramos,
Não cantam rouxinóis - os pássaros celestes.
15. Tudo foi feito para quando amamos,
E o nosso amor repousa à sombra de cipestres.

Onde anda o teu olhar nostálgico buscando
A luz do meu olhar que tu abandonaste?
O lírio sideral desta paixão, murchando,
20. Vergou-se lentamente e separou-se da haste.

Agora só me resta a tênue claridade
Escassa desse olhar distante, que não vejo...
E floresceu magoada e triste uma Saudade
Na fronte em que deixaste o teu primeiro beijo.

Versos

Falo-te, agora, na surdina mansa
Das vozes de um luar incompreeendido
Não vale mais tua bela trança...
Tudo no mundo, tudo, é já perdido.

5. O sonho abstracto que sonhei um dia
Desfez-se como as brumas do levante,
Passam por mim fantasmas da Agonia,
Pois todo o riso já vai tão distante! ...

Nem Conventos, nem Trapas, nem Calvários
10. Têm para mim largas e abertas portas!
Visto o bioco dos monges solitários
Na comunhão final das coisas mortas.

Tudo passou. E as cinzas do Passado,
Leva-as o vento para Nunca-Mais...
15. Dona Triste, do olhar amargurado,
Quem sabe o dia em que me encontrarás?

Contam que existem, muito além da Terra,
Vagos países de abandono;
Quando acabar a guerra,
20. Vai começar a noite e o luar meigo do sono...

Crianças

Eu, que tenho a alma triste, a alma desolada,
Viúva d'ilusões, vazia d'esperanças,
Gosto de ver sair da escola, em revoada,
O bando folgazão e alegre das crianças.

5. Espíritos que a luz da infância inda ilumina,
Meninos que viveis no mundo das Quimeras,
Almas que têm o meigo aroma da bonina,
Flores, desabrochando ao Sol das primaveras,

Contemplo-vos agora e fico-me a pensar
10. Que a alegria franca, essa alegria azul,
Vos há de a todos vós um dia abandonar
- Nevoeiros que desfez a viração do Sul!...

Estalactite

A gota vagarosa,
Infiltrada no dorso hirsuto da montanha,
Atravessa da gruta a abóbada porosa
E forma lentamente incrustação estranha.

5. Também na alma humana
A lágrima cruel, caindo dia a dia,
A lágrima que gera a negra dor insana
Forma a Estalactite enorme da agonia.

D. Quixote

O esguio D. Quixote, o altivo herói andante,
Viver a combater a iniqüidade e o mal.
Em seu cérebro, então, surgiam, delirante,
Aventuras de amor, combates sem igual.

5. Foi assim que ele teve o encontro dos moinhos,
Que numa hospedaria o armaram cavaleiro,
E que encontrava sempre, à beira dos caminhos,
Aventuras iguais à do elmo do barbeiro.

A imagem gentil da Dulcinéia amada,
10. Iluminando aquele espírito doente
Para a conquista ideal da glória desejada,
Ao herói emprestava um desespero ardente.

E enquanto ele viveu nas alucinações,
A combater heróis e perseguir gigantes,
15. O pobre cavaleiro altivo dos Leões
Sofria calmamente as dores irritantes!

Mas, quando, fatigado, em mortuário leito,
Voltando-lhe a razão, o Sonho conheceu,
Um ai entumeceu-lhe o emagrecido peito
20. E o grande lutador, a suspirar, morreu...

Eu tinha como ele um ideal, Senhora!
Vivia da quimera azul do nosso amor:
O sonho se desfez; e só me resta agora
Aspérrima saudade e truculenta dor...

sábado, 19 de julho de 2008

Banksy *






Não se sabe nada a respeito de Banksy. Ninguém jamais viu seu rosto, sua pele, cor ou altura; nem sequer ouviu sua verdadeira voz. Contudo, o artista britânico de maior impacto nos últimos anos já teve sua obras expostas em galerias de arte, leiloadas em sites e diversas reproduzidas em milhares de camisetas.
Sabe-se que a intenção de Banksy é chocar. Através de uma cena armada, juntando objetos e personalidades comuns a todos, passando por acontecimentos diários e pouco significantes até os mais violentos, Banksy deixa sua marca, sua personalidade criativa e opinião subversiva expressas, talvez esperando que tenhamos um olhar crítico o suficiente para intervir no desarmônico conjunto social no qual vivemos.
Não é difícil para o espectador sentir-se atônito ante a garotinha vietnamita da obra "Napalm" - "bem" acompanhada dos mal intencionados Mickey e Ronald - , impotente ante aos sinais de um futuro apocalíptico de criancinhas simpáticas que, distraídas, brincam à luz do entardecer em Jack and Jill (Police Kids), ou até mesmo horrorizar-se com a pseudo-cristandade de uma sociedade ocidental consumista em "Christ with shopping bags" .
Indescritível.


# Banksy é o único artista de rua em Bristol, sua cidade, a ter seus trabalhos reconhecidos pelo governo local. E nenhuma obra sua foi apagada;
Banksy, sobre seu pais e a sua profissão: “Eles pensam que sou um decorador e pintor”.

Microcosmos


Microcosmos: Le peuple de l'herbe

Microcosmos: Fantástica Aventura da Natureza, como foi traduzido em bom Português, teve sua realização completa no ano de 1996. Durante seus 30 minutos -e nada mais- este pequeno documentário sobre a vida animal reune cenas diversas de um verdejante prado localizado em algum lugar da Terra.
Nossos heróis não são super estrelas, tratam-se de insetos e outros poucos animais selvagens que entre seus minúsculos mílimetros de comprimento até dois ou três centrímetros, em média, realizam o seu exercício mais natural. Tudo está mantido sob o conceito de microcosmos, possibilitando a cada espectador assistir ao nascimento, crescimento, reprodução e até mesmo à morte, numa constatação inusitada sobre o que é Universo, suas dimensões, etc. Em suma, a existência não passa de uma percepção de cada espécie, e isto significa que se para nós, por mero exemplo, uma simples gota de água é nada mais que desprezível, para um outro conjunto de seres vivos muito pequenos a mesma gota d'água é como um oceano.

Uma hora é como um dia, um dia como uma estação, uma estação como uma vida inteira.


O brilhantismo deste espetáculo dos Microcosmos reserva ao espectador bons momentos de curiosidade, espanto, descoberta, beleza e simpatia. Um vídeo primoroso, sem intervenções ou comentários de narração onde, salvo alguns minutos de música e o rápido monólogo de apresentação, tudo acontece naturalmente e assim permanece.

Vencedor do prêmio Cesar de 97 (Som, Fotografia, Trilha Sonora, Montagem e Documentário), com a produção de Jacques Perrin, Christophe Barratier e Yvette Mallet. Direção de Claude Nuridsany e Marie Pernnou. Absolutamente válido e, talvez, inesquecível.

"Mas, para aproximar-se deste mundo, tem-se que aprender a silenciar e escutar seus murmúrios..."

quinta-feira, 17 de julho de 2008

{5}

Em casa, minha mãe e eu. Deitado no sofá, assistindo a um filme péssimo na tv, vejo minha mãe tirar da bolsa o último Ice Kiss sabor canela. Mamãe decide dar uma lida na embalagem do confeito:

- Uhn. Deixa eu botar meus óculos pra ver o que tem escrito.
- O que é?-
pergunto.
- Ãn... Diz "Na sua vida o dê jota é você..."
- Na sua vida o dê jota é você?... ô. Aaaah!... Na sua vida o DJ é você! (rindo muito)
- Ahaha DJ, é?
- É."Di Jêi". Entendeu? Tá em Inglês. Aquele cara que passa música em festa, em show... sabe? (rindo muito)
- Ahhh siiiiiim. (rindo muito)
- "O dê jota"... por isso eu achei estranho. (ainda rindo)
- Ai, e como é que eu vou saber? Eu não entendo nada desse negócio de Di Jêi. Outra geração, né (risos)
- Haha. Aiai, mãe... a senhora é demais. - :)
- Hauahua - :D

{4}

Na Internet, durante uma conversa sobre qual disco seria mais pesado, Nevermind (Nirvana) ou Fun House (Stooges), vieram várias respostas. Toda uma conversa sobre influência, originalidade e aquele papo técnico que já é de costume, mas nada realmente convicente pra desempatar a disputa.
"O melhor é Nevermind";
"Cês tão maluco, cambada?!! Fun House, claro!".
Quando se fala de Rock, nunca se sabe realmente o que se quer dizer com pesado. Um termo dúbio, sabe? Seria o quê? "Agressivo"? (Continua dúbio). "Furioso"?... "Cru"? (eca!). Aí, no meio daquela confusão entre fãs e fãs, alguém manda uma mensagem tosca e ao mesmo tempo suficientemente lógica pra fazer a galera rir:

"Sim. Realmente, Funhouse é mais pesado.
Tire suas dúvidas:
Funhouse : O LP pesa 315g, o CD, 148g;
Nevermind: O LP pesa 297g, o CD, 145g.
Fonte: INMETRO, abril de 2003.
haha"

Bobagem de primeira.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

É um prédio curioso quando se vê de longe.


Todo como uma rocha, uma pedra única de cimento e barro, parece que algum dia ele vai despertar e sair andando dali. O lugar? Qualquer um menos aquele. Mas eu gostava de ficar embaixo dele, sentado num banco de cimento pregado no corredor externo do térreo. Meu pai e eu passávamos bons tempos lá. Eu levava a minha bicicleta velha, toda em pedaços, que eu tinha na cor azul, ou pegava emprestado a do meu pai e passava horas a correr pelo Campus, dando voltas e voltas, e mais voltas. Depois eu voltava, sentava ao lado do meu velho e ouvia seus discursos sobre a Bíblia Sagrada e as histórias, verídicas ou não, que lá estão escritas. Até me lembro que discordávamos de diversos pontos. Sempre achei que o meu pai fosse fundamentalista demais - e de fato ele é. Já ouviu a expressão "A Bíblia é a sua espada"? Pois então, isso resume tudo que estou contando - . Mas o meu pai era muito bom mesmo em contar histórias, e me surpreendia quando descrevia detalhes dos acontecimentos finais do mundo, ou quando contava as historinhas de Davi, Sansão... Jeremias, Cristo, e muitas outras que eu costumava ouvir toda manhã de domingo na igreja.
Depois de respirármos bastante ar puro, às vezes dávamos voltas sem rumo certo. O que bastava era andar, fosse por ali ou acolá. Andávamos, só isso. Certa vez ele subiu numa árvore cheia de azeitonas roxas, formigas e tudo mais, apenas para pegar os frutos. Ele sabia do meu gosto, e por isso foi até lá, mesmo que lhe custasse tomar algumas mordidas. Para ele não importava a dor, o esforço mínimo ou gigantesco que fosse. Assim, eu não lembro de uma só ocasião em que ele não tentasse me ajudar. Seu contentamento esteve todo tempo em me ver feliz. Certa vez, juntos, nós criamos duas pipas e ficamos durante horas brincando em frente ao CFCH, numa área verde. Foi nesse mesmo dia que minha pipa se deixou levar pelo vento forte e entrou numa sala do décimo ou décimo primeiro andar, não sei. Uma mulher pôs o rosto para fora da janela, fez um xingamento e depois entrou. Salvo o desastre, a situação teve muita graça. Meu pai e eu rimos durante horas, e acabou que sempre no meio de uma conversa qualquer, vez ou outra, ríamos novamente, lembrando e relembrando a desgraça da magnífica "pipa assassina". Aqueles dias sob a sombra do titã de pedra nos fizeram bem, pois jamais terminou de outra maneira que não fosse a mais agradável.
Às vezes eu subia e descia pela esteira que leva ao primeiro andar e que hoje está desativada. Corria para ver a turma da primeira sala, soltava gracinhas e retornava ao térreo. Nessas situações, os alunos prestavam bastante atenção em mim... acho que gostavam, mas, nem sei porque nunca mandavam seguranças falarem comigo; nunca havia alguém para me tirar dali. Contudo, na primeira vez que os garotos me olharam fiquei preocupado, pensando que talvez eu estivesse mesmo errado em ir até lá. Enfim, essa história nunca deu em nada.
Nos últimos dias eu pensei nas coincidências daquele tempo e o de agora. Exatamente porque foi nessa mesma sala perto do final da esteira que eu tive minhas primeiras aulas do curso de História. Eu apenas era um pequeno brincalhão, jamais havia pensado em estudar ali, naquele prédio. Na época eu devo ter pensado em ser um bombeiro, motorista, astronauta... Historiador? Háh! Isso não entra na lista do "quero ser quando crescer". Foi assim que eu descobri o que os moços simpáticos tanto faziam por lá. Coisa que nunca fiz ou ousei fazer foi entrar no prédio. Eu pensava que era preciso credencial, ou, sei lá... ticket, talvez. Nunca mencionaram comigo nada a respeito do ambiente interno do Centro. Fiquei mais ciente disso ao longo do curso, e desde que eu inicei só tivemos professores bem loucos. E nós temos professores bem loucos! E - será possível?! - nós teremos professores ainda mais loucos!
Quando me debruço na janela da sala vinte e um às vezes esqueço do tempo... às vezes me lembro um pouco, ainda cheio de falhas na memória, do meu tempo infantil, dos meus "dias de esteira", da sala onde entrou a pipa e que hoje talvez seja a mesma da professora de Brasil V (que ela não saiba disso :D). Lembro mesmo é do tempo ganho, e não perdido, sentado junto ao meu pai no banquinho próximo à entrada do Centro. Sentado nos bancos de praça que estão no meio do corredor do segundo andar eu fico voando, como se tentasse refazer o nosso quase ritual familiar dos fins de semana... tomando o vento que corre da janela até onde estou, dialogando bobagens com os amigos mais próximos e os mais distantes. Abro meu sorriso tímido e reflito: "A vida é boa".

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Alguém disse.



"Toda sociedade é um sistema de interpretação do mundo; e, ainda aqui, o termo 'interpretação' é medíocre e impróprio. Toda sociedade é uma construção, uma constituição, uma criação de um mundo, de seu próprio mundo. Sua própria identidade nada mais é que esse 'sistema de interpretação', esse mundo que ela cria. É por isso que (da mesma forma que qualquer indivíduo) ela percebe como um perigo mortal qualquer ataque a esse sistema de interpretação; ela o percebe como um ataque contra sua identidade, contra ela mesma."

Cornelius Castoriadis

terça-feira, 1 de julho de 2008

Manon.> *


(Um dos meus primeiros escritos - é mediano)



Num dia de chuva, tempo nublado e áspero, a manhã foi-se embora conversar com o sol. Desde muito eram amigos. Sempre foram. Mas aquele dia parecia ter algo especial, e assim a manhã foi atrás do sol para conversarem, aproveitarem um tempo livre. Sempre que o sol tirava dias de folga, a manhã se animava para comerem biscoitos e chá, discutirem sobre tudo, sairem por aí a falarem bobagens. O sol estava num canto da sala espacial, deitado na sua rede feita de estrelas costurada pela própria lua como presente de aniversário. A manhã seguiu a passos lerdos até encontrar-se com o amigo sol. O sol lastimava, envolto em pensamentos.

S-"Ah, manhã, linda manhã... dizem por aqui que vou morrer logo logo"
M-"Mas por que diriam isso, se te vejo tão bem quanto antes: Corado, vivo...?"
S-"Alguns afirmam que é porque tudo tem seu fim, e o sol também terá um dia. Outros, por pura distração, sem terem ao certo o que dizer, saem por aí proferindo palavras tolas. Outros mais contam meus segundos, meus milhares de anos que me restam; os estudiosos são esses, esses que afirmam com toda certeza que eu irei explodir e levar junto comigo todo o existir ao meu redor. Maneira péssima de me imaginarem morto."
M-"Mas se isso acontecer será já bem tarde. Sabe, eu mesma temo pelos dias em que não serei mais eu. Os dias em que não haverá mais a manhã. Dias nublados, como esse na Terra, mas numa escuridão sem fim."
S-"Foi só um pensamento bobo o meu"
M-"Eu sei..."
S-"Mas eu tenho que te dizer... tenho uma paixão imensa pela Terra. Tem até umas coisinhas engraçadas por lá. Coisinhas com mais ou menos um metro e meio, que falam, que andam, que pensam, e que às vezes se acham o centro desse nosso universo; e essas coisinhas, de vez em quando, até tomam boas atitudes. É. Essas coisinhas falantes ajudam os outros, protegem quando preciso e até lutam contra outras coisinhas falantes que só fazem o mal. E são tão bonitinhos, todos eles... Vivem na Terra como se fosse para sempre. Sempre... e sempre."
M-"É, e eu entendo. Chamam-se humanos, não é? Realmente graciosos. Eles temem pelo que possa acontecer. Arquitetam, planejam para o futuro. No entanto, repetidas vezes, esquecem de viver momentos tão simples... Lamento por eles, até. Mas não são culpados pela pouca vida que têm, infelizmente."
S-"Uhum. É por isso que permanecem daquele jeitinho. Talvez, fazendo tudo para amanhã eles possam dar aos seus descendentes o tempo necessário para viver o hoje."
M-"Quem sabe..."
S-"É, quem sabe?..."
M-"Estou por lá, na Terra, há muitos séculos, e ainda não vi onde os homenzinhos possam chegar. Eles nos observam, você, eu, todos aqui fora, nesse espaço. Explicam o que somos, dizem os porquês... nossa constituição química (é, eles tem uma idéia chamada química), é mais ou menos isso desde um povo chamado... chamado... "gregos"! - é isso! - e um outro povo... um outro povo que eles chamam, se não me falha a memória, de "filósofos"."
S-"Ah, sim! Conheci diversos deles. Ouvi suas palavras, observei suas cerimônias, mas não houve sentido para mim. Nunca entendo o que as coisinhas falantes querem."
M-"Pois é, alguns deles até se dizem senhores do mundo, senhores de tudo. E o pior é que tem sempre alguém desejando dominar a Terra, conquistar territórios... eles fazem até filmes sobre isso!"
S-"O que são filmes?"
M-"São historinhas que eles guardam em objetos escuros. Difícil entender, mas eles se divertem muito. Depois de botar toda a historinha nessa coisinha preta, eles chamam todo mundo para ver como ficou. Mostram isso num local escolhido só para eventos assim."
S-"Ah."
M-"Aí, para que possam entrar nessa salinha escura e verem o filme, a historinha da caixinha preta, eles têm que pagar. Em outros lugares até entram de graça."
S-"Oh, sim, acabo de lembrar. Eles representam artisticamente esses outros, os maus, em diversas situações, incluindo os filmes, com a finalidade de se divertirem. Mas o que me espanta é que eles se acostumam rápido com a dor. Não sinto dor, mas imagino como seja ruim, porque sempre vejo eles entrando em uns blocos de pedra e barro, o que eles chamam de casas ou prédios, em busca de ajuda. Eles vão até lá morrendo de dores, acabados, feridos, porém nem sempre saem melhores do que foram procurando socorro. Os homenzinhos também fazem guerra, que é quando eles não se suportam e eliminam uns aos outros. Criaram até uma coisa para matar diversos deles de uma vez só: "bombas". Usam seu conhecimento para fabricar mais objetos de destruição, ou quando podem, para conter seus efeitos destrutivos. Os homenzinhos cumprem seu curso sempre divididos. Nunca concordam com tudo, porém não discordam de quase nada. Esperam bastante para não fazerem. Quando fazem errado, poucas vezes admitem que sim, pois querem ter razão. Eles se amam e se odeiam constantemente, sem sentido."
M-"Mas você disse amá-los, todos. Por que então, se o que praticam não é de nada agradável? Por que amá-los? Por quê?"
S-"Porque apesar de tudo que fazem de mau, eles na verdade escondem seus medos. Eles se sentem pequeninos, como de fato são, cada um, e convivem com um receio de estarem sempre sós. Mesmo magoando seus semelhantes, eles padecem junto a eles. Eles sofrem, se arrependem, e os que não se arrependem para que todos saibam muitas vezes se sentem culpados e condenam a si mesmos, vivem em remorso. Erram, mas com o tempo corrigem. Claro, não são todos. Há também os que não se arrependem de nada que tenham feito. Preferem o ódio, a solidão. Mas essas coisinhas falantes da Terra, essas criaturinhas pensantes, no todo, são seres de bem. Disso esteja certa."
M-"Pensando assim, o que mais dizer... você, por pouco, me convence."

Só quando as nuvens se abriram e todos puderam sentir um calor na Terra, a manhã voltou ao seu posto e o sol deu seu brilho intenso outra vez. As carinhas de toda gente, iluminadas, fizeram a manhã pensar em tudo que o sol lhe contara, e definitivamente a cor vívida de cada rosto a fez imaginar que, talvez, dentro daquelas criaturinhas sem grandeza alguma, ainda restara uma ternura de esperança e bondade agasalhada em seus corações.




* acho que eu tinha 15 ou 16 anos quando montei este continho inacabado. foi divertido pra mim, eu me lembro pouco, mas sei que foi, sim.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Monalisa teve um Orgasmo¹



Sempre nos perguntavam nas aulas de arte se tínhamos idéia sobre o que os pintores mais importantes de cada movimento e escola de pintura teriam concebido antes ou durante a produção de suas respectivas obras. Custo a ter certeza, mas acho que o ponto crucial desses exercícios era despertar nossa criatividade adolescente ainda adormecida, ou pelo menos obter simples respostas. Mas tudo bem.
Durante a aula sobre Renascimento, chegamos a comentar sobre a importância de Leonardo Da Vinci na cultura secular. Na época, nem sequer cogitávamos sobre o Código; filmes, livros de hoje, pérolas de Dan Brown, etc, muito menos que o nome Da Vinci seria, mais uma vez, tão falado e sussurrado pelos cantos e ruas (Nem eu sabia que existiria um personagem de nome igual ao meu naquele bendito filme com o Tom Hanks). Houve muita agitação durante a semana, e ficávamos à espera de saber cada historinha do multi-homem, o Léo, aquele irmão, quase chegado nosso. Hoje eu fico imaginando como a professora Leila conquistava nossos sentidos, sendo capaz de tornar um assunto tão chatinho, sem sal, em algo delicado e atrativo. Aquela mulher era fantástica - é apenas o que sei -, tanto que se tivesse uma filha trataria logo de pôr o seu nome de Leila; ou, se não fosse possível, pelo menos um apelidinho carinhoso... Lêlê, lélé. Fica bom assim. Leila é nome de música, coisa que amo muito.
Mas Leila nunca quis saber de maiores conversas. “Respondam! Ponham o cérebro pra funcionar, crianças...”. Odiava quando ela dizia crianças, com aquele tom desafiador, do “agora quero ver”. Às vezes ela chegava ao ridículo de querer, por exemplo, um desenho nosso sobre uma casa muito engraçada que não tinha teto e não tinha nada. Tanto fez, que recebeu de mim apenas uma folha em branco. "Não tinha nada, lembra?", foi o que eu disse.
Algumas pessoas arriscaram dizer que poderia ter sido uma piada, mas logo tomaram banho de água fria, porque “se fosse piada, Monalisa estaria explodindo em riso, e não com aquela carinha delicada”. Teve gente dizendo ser apenas pose para a pintura, mas essas pessoas nem tiveram vez ou réplica da professora. Ela não era disso de aceitar fácil uma explicação, e as mais bobinhas não tinham espaço. Mas aí eu comecei a levar a sério o desafio. Pus meus olhos fixos na reprodução da folha impressa que circulava na sala de aula, de mão em mão, e fiquei imaginando. Reparei bem o trejeito de Mona, observei em que época teria vivido e liguei tudo isso ao seu comportamento, que não deixava de ter sua graça. E mais graça ainda ao pensar que parecia transparecer um ar de molecagem, ou coisas que ela não deveria ter pensado naquele momento e que, ainda assim, pensou. “Esse risinho é um pouco safado... parece que ela... ei!”. Cogitei algo, mas salvei a excitação daquela observação e mantive minha opinião guardada para o instante em que Leila me questionaria, preparada para refutar minha resposta, fosse qual fosse.
No centro da sala, alguém comentou sobre algo: “Não é bem assim”, ouvi Leila responder. “E aí, Silas, o que você acha?", olhou bem para meus olhos e mandou essa. Tinha chegado a hora, e eu, já ciente do que poderia acontecer, mesmo assim respondi: "Ela... Monalisa... a Monalisa... ela..." - suando frio, as mãos gélidas - "Monalisa teve um orgasmo!" - soltei rapidamente, sem mais duvidar.
Nem preciso dizer (ou preciso?) que depois disso eu mal consegui andar de um canto a outro daquela bendita escola sem que eu fosse lembrado como o cara do orgasmo; nem que durante aquela aula não pude concluir meu raciocínio sério diante de tamanha festa, choro de alegria e muito mais. Riram tanto quanto foram capazes, e no tempo de uma semana inteira de aula eu fui o alvo. Faltava-me somente algo do tipo kick my ass preso nas costas.
No último ano de estudos, a 8ª, as seqüelas nem haviam sumido direito. Sempre havia um que, relembrando situações engraçadas, fazia menção ao ótimo “caso Monalisa”. Aliás, no fim daquela aula memorável, Leila apenas conseguiu me contar que a minha resposta havia sido a mais... mais de todas as que ela teria ouvido até então. Quando pude comentar a respeito, meses mais tarde, e fizeram questão de me perguntar o porquê de tal conclusão, respondi simplesmente com as palavras mais naturais e claras que me vieram à mente:
Eu achei que deveria focar o sorriso sem esquecer Monalisa, a mulher, a pessoa com as sensações que todo mundo tem. Depois disso, por ser tão enigmático, a ponto de provocar discussão quase sem fim naquela aula, eu achei melhor ter uma resposta pra todo mundo discutir. Claro que não pensei, de cara, que teria a ver com sexo. Não sou tão bom assim, nem posso dizer que sou o tal. Aí eu mirei a foto bastante enquanto ia escutando as respostas. Todo mundo respondendo assim... na lata. Até que me veio uma idéia rápida sobre a época de Monalisa, de Da Vinci... um mundo ainda protegido, bastante machista. Aquele mundo onde as mulheres não podiam sentir ou, pelo menos, aparentar prazer. Foi quando me veio na cabeça o sexo. Prazer-sexo. E eu fui ligando uma coisa com a outra, até rever aquele sorrisinho safado e imaginar o famoso orgasmo. Aquilo ainda tá na minha cabeça: orgasmo. Sorriso-prazer... é isso”.
Até que a justificativa pareceu boa, suficiente pra que armassem carinhas de pensamento. E todos eles se contentaram com a explicação. Alguns deles ainda riram; outros até concordaram... Mas eu ainda acho que teria melhor sucesso, como uma boa amiga certa vez mencionou, se dissesse que Leonardo da Vinci, no decorrer de suas pinceladas (no bom sentido, claro), talvez estivesse nu. Vai saber.

¹Olha bem pra essa carinha e me diz que não!

sábado, 21 de junho de 2008

"Entrar na Mente"


Muitos estudiosos nos contam que para convencer uma pessoa com quem você pretende ficar é preciso "entrar na mente". Mas o que isto seria? Exemplos são bem simples, mas de pouca relevância - como sempre. Vários homens cometem falhas nas suas tentativas de "entrar na mente", com perguntas do tipo: "você vem sempre aqui?" ou "te conheço de algum lugar?". O fato é que a técnica de "entrar na mente" é universal, e pode ser aproveitada em situações diversas com público diferenciado, não importando se você quer conquistar aquele garoto... ou aquela garota.
Coisa importante é lembrar que jamais devemos perguntar, por exemplo, se o cachorrinho da moça tem telefone. Bem, isso pode até funcionar se for o cachorrinho dele, até porque -estupidamente divertida esta quase obervação científica- os homens estão mais sucetíveis às frases de efeito que eles mesmos usam. [Sinceramente, o criador dessa cantada deveria estar preso, em pena perpétua !]. Mas deve ter seus efeitos. Não haveria sentido em usá-la caso não tivesse funcionado com alguém em alguma vez por aí, num lugar muito muito distante (ou não)
Agora falando por mim: eu não gosto de usar esses métodos; não com seriedade. Quando me refiro à seriedade eu quero me referir a atitudes sinceras minhas de querer demais ficar com alguém, que é quando a gente deseja o bem e tem vontade de cuidar, proteger, entre outras coisinhas. Posso brincar com uma amiga, fazer graça, isso quando não há sentimentos de puro amor ou paixão. Nessas situações isso só é parte dos mínimos detalhes diários que usamos vez ou outra a fim de divertir alguém muito querido. Uma amiga confidente, quem sabe, sem nenhum desejo de ofender sua inteligência ou parecer idiota.
Estive com amigos e vi todos os lances, e acho que o problema não é ser original, muito menos criativo. O X dessa problemática é que os homens usam demais o seu Y. Eles não se permitem sentir. Chorar, então, é algo super difícil (Tá, horrível isso. Mas é importante e necessário ser natural). Para que possam dizer o que na verdade pensam sobre elas é ótimo que conversem melhor, o que não significa mais. A vida é como o vento. Podemos assim entender que as relações têm demasiada tendência, sobretudo com as agitações diárias típicas do nosso momento histórico, a resumirem-se a instantes prazerosos. Fora isso, apenas o tédio.
Importa que as pessoas se amem melhor, já que não se amam com freqüência. E mais uma coisa: a realidade é que este mundo vem sendo dominado por dois grupos de gente: as crianças e as mulheres. As crianças, porque o universo adulto, hoje, é servo de aspirações infantis, e os pais de agora só conduzem o jogo familiar na teoria.
Sério! Crianças conseguem de tudo através de sugestão semi-hipnótica. Chorando, então, são mortais. Já viu um adulto ficar sob o domínio delas? Eu também.
"ôôôuuu, meu querido, fica assim não... papai vai comprar", "mamãe vai te dar um sorvete", "tome. iiiisso, dê um beijinho no papi. ôoouuunn". Mas as mulheres que aproveitam de semelhante poder gozam de resultados gloriosos; e nada consegue ser melhor para essas mulheres do que tê-los, os homens, sob controle incondicional. Todos os homens são bobinhos por natureza. Bobos, quando se apaixonam; bobões, quando amam. Tudo nesta ordem. E se as mulheres se comportam como crianças e investem nisso, as conseqüências do ato tomam proporções gigantescas.
"Você não gosta mais de mim... não é?", "Você nunca faz o que eu quero...", "Você diz que me ama, mas eu sei que não!". É, meu caro, as mulheres também tem suas frases de efeito. Sempre.
"Entrar na mente" consiste saber como os grupos humanos se comportam, dividem tarefas e se arriscam para alcançar suas metas. Sair à noite para se divertir, sempre mais de um, faz parte de um plano. Convidar para dançar, oferecer uma bebida, chamar para sentar à mesma mesa...
Eles perguntam; elas dizem não. Eles insistem; elas se fazem de difíceis. Eles dizem palavras sem sentido; elas riem. Eles avançam para roubar um beijo; elas se afastam dando em troca, quem sabe, um beijinho no rosto - Ah, beijinho no rosto... isso é mau, muito mau! {risos}
E assim as pessoas seguem o curso natural e saudável de suas existências. :)

sábado, 14 de junho de 2008

{3}


Giro aflito
Beijo e grito
Algo mais
Algo mais

Pra que isso?


Existem modalidades de destruição. Uma é boa, necessária para que se possa construir o novo - um exemplo é o médico-cirurgião, que precisa destruir, rasgar o corpo, para poder curar. A outra é como um desabafo: está associada a uma tentativa de escapar dos controles que a sociedade impõe. Então o indivíduo combate a falta de liberdade aniquilando o que o oprime. E briga com a família, briga na rua, se revolta. Um terceiro tipo é a destruição com crueldade, como a de um esquartejador. Essa crueldade, que pode estar em destruir um simples castelo de areia na praia, vem da força do desejo das pessoas se aproximarem. E é por isso que a destruição fascina os homens.
Algumas pessoas têm uma compulsão à destruição porque se vêem incapacitadas de construir. "Se eu não posso ter, ele também não pode": esse raciocínio justifica acabar com o que é do outro. Por outro lado, existem as pessoas que ficam felizes com a desgraça alheia, e isso explica por que gostam de ver imagens de guerra, de cidades destruídas, de assistir a programas policiais, de se deliciar com uma briga na rua. É um prazer, uma maneira de se confortar por não ser o único impotente do mundo. A fascinação pela destruição é uma maneira cruel de não se sentir sozinho, não ser o único a sofrer.
Mas há também os casos daqueles que destroém por profissão, digamos. Quem destrói dessa maneira muitas vezes se sente onipotente. "Eu posso tudo" é uma tentativa de negar sua própria limitação. Daí para o exercício da crueldade é um passo - e ser cruel é apenas um modo de compensar a própria impotência e limitação. Dentro disso, é preciso considerar que atos visivelmente destrutivos não são muito diferentes das destruições de colarinho branco. A frieza e a maldade de alguns políticos ou administradores de empresas não são menores do que aquelas que se verificam em casos mais assustadores. Somente munido de prazer de não considerar os outros como pessoas é que alguém consegue demitir milhares, roubar milhões. Isso também é crueldade. E esses destruidores usam o poder que têm para aniquilar seus semelhantes e, com isso, negar sua impotência diante da vida.
Para o indivíduo se constituir, ele tem que se diferenciar, separar-se dos outros corpos, assim como se separou do corpo de sua mãe ao nascer. Isso traz uma vontade de voltar ao contato com outros corpos, uma vontade totalmente normal, humana. Porém, existindo possível ameaça de sofrer, emocional e fisicamente, o ser humano cria o medo de se aproximar do outro. Uma das respostas, então, é ser cruel.
Por fim, destruindo o outro e o que é dele, negamos a vontade de estarmos juntos.

domingo, 25 de maio de 2008

O pequeno ninguém na terra da soneca



















Little Nemo in Slumberland é um daqueles consensos que os jovens leitores têm dificuldade para entender. A maioria dos criadores de quadrinhos, principalmente os que passaram dos seus 50 anos, sempre citam o personagem como uma importante influência. A razão disso vai muito além do fato da tira ser uma das precursoras dos quadrinhos: está ligada à qualidade excepcional do material, principalmente o desenho, que ainda hoje pode ser considerado uma excelência em traço.

O personagem surgiu em 1905, no The New York Herald, criado por Winsor McCay, que na época já trabalhava com outras tiras do jornal e tinha começado uma série com aventuras noturnas de temática adulta, da onde surgiu a idéia de Nemo.

As tiras eram sobre um pequeno garoto, Nemo (que em Latim significa ninguém), que viajava por um fantástico mundo de sonhos, sempre acordando no final da página encerrando sua aventura. O visual de Nemo foi baseado no filho de McCay, Robert, e foi totalmente desenhada no estilo único da Art Nouveau.

Engana-se quem imagina que essas histórias eram somente para crianças. As aventuras de Nemo em seus sonhos eram agitadas, perigosas, surreais e, algumas vezes, até violentas, o que levava o pequeno a acordar no último quadro muitas vezes gritando na companhia dos pais ou de seus avós preocupados.

Nemo passava por todos esses apuros para chegar ao reino de Slumberland, onde deveria encontrar o rei Morpheus e ser coroado amigo da Princesa. Contudo, suas aventuras eram constantemente interrompidas por Flip, o filho do Sol e neto do Alvorecer, que usava um chapéu escrito “Wake Up”. Bastava Nemo vê-lo para acordar. Outros personagens freqüentes da série eram Dr Pill, The Imp, Candy Kid e Santa Claus (Papai Noel), um dos personagens mais divulgados naquela época, graças aos esforços de ilustradores como Joseph Christian Leyendecker, criador da versão clássica (um senhor gordo e vestido em vermelho), e Norman Rockwell.

A popularidade de Little Nemo cresceu rapidamente e logo o personagem passou a endossar outros produtos, como roupas, brinquedos, cartões postais, livros e jogos. Em 1908, Victor Herbert escreveu uma peça de teatro apresentada na Broadway com Nemo como protagonista. O garoto ainda ganharia uma animação feita pelo próprio Winsor McCay, um pioneiro na área. Esse filme tornou Little Nemo o primeiro personagem de quadrinhos a ser adaptado como animação para o cinema.

McCay deixou o The New York Herald em 1911, indo para o San Francisco Examiner e outros jornais de William Randolph Hearst, onde continuou publicando as aventuras do personagem na série de tiras In the Land of Wonderful Dreams. O material foi publicado até 1914, quando Winsor foi retirado da seção de quadrinhos pelo seu editor. Nos anos vinte ele ainda publicou o personagem por mais alguns anos, mas encerrou definitivamente em 1927.

Após a morte de McCay, em 1937, seu filho, Robert McCay, tentou reviver as tiras na década de 30 e depois em 1947, quando o personagem apareceu pela última vez nos jornais.

O material não foi esquecido. Em 1966 ele fez parte de uma mostra dos trabalhos de McCay no New York's Metropolitan Museum of Art, uma das poucas exibições dedicadas exclusivamente à um cartunista.


A editora Fantagraphics Books republicou, entre 1989 e 1993, o material clássico de Little Nemo em uma edição em seis volumes. Esses livros foram tidos como a versão definitiva da série, até que, em 2005, o colecionador Peter Maresca apresentou sua republicação pela editora Sunday Press.

Essa coletânea chamada Little Nemo in Slumberland: So Many Splendid Sundays! foi impressa no formato 53,3 cm por 40,6 cm, reproduzindo as páginas de jornal no tamanho que eram impressas na época de sua publicações. Essa republicação foi um verdadeiro trabalho de amor de Maresca que bancou a edição e acompanhou todo o processo de impressão para garantir que as cores ficassem como as das publicações originais dos jornais.

Hove interesse? Então junte seus trocados: a edição completa custa US$ 150,00, e está toda em Inglês. É provável que a edição em língua portuguesa venha por aí, já que a editora Conrad tem apreço por essa literatura e publica material semelhante com regular freqüência. Só ainda inexistem as garantias de um projeto futuro para o pequeno Nemo.
Apesar dos obstáculos comerciais, vale a pena.











sábado, 24 de maio de 2008

Filosofia



























terça-feira, 6 de maio de 2008

{2}

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.



Pablo Neruda

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Ora (direis) ouvir estrelas!'' (#)


Acima, no céu, o aspecto noturno do Universo me encanta.
Nos tempos antigos, homens quiseram decifrar as jóias do espaço. As ditosas Constelações mitológicas. Ursa Maior; Cinturão de Órion... Outros mais detiveram-se na descoberta dos “prólogos do futuro”. E aí se foram os anos, os homens... somente a tela escura restou. Essa indiscrição com os astros medram aquilo que parece ser nosso desejo ardente ante à vida; a impressão de nossa inferioridade vital vigiada por forças maiores, invisíveis. "Aquilo tudo é casulo, feito para nos defender". Assim, naquele final de noite sabatina e início de uma nova manhã dominical, tive imensa vontade de contar estrelas e descobrir o céu. Esqueci um pouco o tempo, os porquês, e detive-me na ação. Pus um simples caderno azul, de páginas borradas e amarelas, entre os punhos, e, apertando uma pequena caneta azul entre o dedos polegar e indicador da mão direta, iniciei o meu processo de cartografia dos céus. Desenho após desenho, logo enxerguei, em frente ao portão, 45º a Leste do referencial domiciliar do quintal, uma borboleta. Desnecessário esforço de recursos imaginários, estavam lá, sinal por sinal, asas de estrelas azuladas pulsantes e a parte ao centro do encantador inseto invadida pela força maior de uma estrela amarela. Meus olhos mexeram rapidamente, ansiosos por captar as posições, traçar linhas no caderninho borrado. Melhor ainda quando uma imensa pipa de quatro cores me achou a sete passos do portão. A principal era em tons amarelos, e seguida nas laterais direita e esquerda por brilhos azul e branco; uma última estrela fez-se inigualável, na ponta extrema inferior: grande, na textura vermelha. Talvez, um planeta.
A penúltima aparição era como um aviãozinho de papel. Este era todo azul. Bastaria retornar à frente da minha casa, olhar 45 graus a Oeste e buscar o azulado mais presente no céu; era essa estrela a primeira, seguida de outras quatro em tamanho menor, todas iguaizinhas, porém, com jeitinho particular, faziam mais barulho, pulsavam. Olhos e ouvidos compartilhavam de uma única sensação de um pulso cardíaco. Tudo era só coração.
Assim, após horas, fui vencido pelo cansaço. No último fôlego e sede, ampliei o meu foco, constatando que a ''constelação da borboleta'' estivera o tempo todo mergulhada num mistério fantástico. Segui os passos daquela fuga, saltei os olhos. Saltei... saltei... saltei. Com os braços fiz abraços pelo ar e juntei a bifurcação final com as palmas das mãos. Achei um pentágono... como espécie de centro estelar e bastante semelhante à fronte de um ser venenoso. Por fim, voltando às asas da borboleta, ali me aguardava a enorme cauda.
O segredo envolto em sombras.

A poderosa Naja entre a hipnótica revelação astral.

Sinais... eu custo a entender. Mas a noite cor de prata, infantil e ingênua, junto ao céu, de anil tocante e claro... das faces desenhadas nas nuvens... do apaixonado crepúsculo... e do alaranjado Outono nas manhãs de Maio... gentis e afáveis, contaram-me um segredo: tudo é quanto é necessário ser.

Horizonte incerto me iluminou com a luz do Sol.